“A Normal Lost Phone” – Uma jornada de descoberta através de um telefone perdido
Categoria: Jogos · Novidades · Observatório Reflexivo
Postado por Daniel Cousland em 12 de setembro de 2017 às 21:41 |


“A Normal Lost Phone” é um jogo e uma experiência narrativa, de perceber mais de si e sua forma de pensar, descobrindo os segredos escondidos em um telefone perdido. Vasculhando fotos, mensagens, músicas, inúmeros e-mails e ainda mais, a história de alguém se formará pouco a pouco na frente de seus olhos.

Foto de uma mão enluvada segurando um telefone com a tela HOME do jogo A Normal Lost Phone. Imagem original do trailer do jogo.

Bem, eu falei jogo – e ele realmente é um – mas um tipo bem diferente. “A Normal Lost Phone” é uma experiência narrativa de imersão, na qual você vai ler muito (de 90 minutos a 3 horas) e entender cada vez mais as circunstâncias que cercavam seu proprietário anterior.

Telas do jogo A Normal Lost Phone, mostrando algumas fotos e mensagens que estão salvas na galeria deste celular que foi encontrado no chão. Entre as mensagens se encontram congratulações de aniversário e uma mensagem do pai do antigo proprietário questionando se o mesmo está bem, se algo aconteceu, pois todos estão preocupados.

SENSAÇÃO DE DESCOBERTA

Não seria injusto iniciar classificando esta história como um mistério, mas essa característica é apenas a porta de entrada para as outras emoções que irão surgir.

De início os leitores/jogadores são  instigados com uma tela aberta, sem qualquer indicações de onde começar – você achou o telefone na rua, não há manual do que fazer -, a decisão cabe à você do que acessar primeiro. Isso é interessante pois a obra admite várias brechas de inserção na narrativa, oferecendo percepções diferentes de quem era esse indivíduo e do que aconteceu, como um quebra-cabeça onde cada pessoa irá enxergar algumas partes antes e depois das outras, mas ao final a figura completa será a mesma.

O que isso faz, além de proporcionar uma liberdade que investe o leitor/jogador como participante ativo da narrativa, é moldar constantemente nossa visão dos fatos que encontramos, e das suposições que vamos formando.

É uma experiência que estimula a descoberta e a redescoberta, e, a cada passo revela mais.
 

A HISTÓRIA

O desejo de esconder (e a sensibilidade por trás disso)

Mesmo na privacidade deste celular existem informações escondidas, como se quem o possuía tivesse receio de alguém mexer nele (exatamente o que você estará fazendo). Essas barreiras, incluindo um aplicativo de relacionamentos e um navegador de internet que não funciona, marcam a progressão do enredo. E há um mistério geral – por que esse celular foi perdido? E bem no aniversário de 18 anos de seu antigo dono? Seus pais o estão procurando, onde ele está?

Mas entre tanto estímulo à curiosidade se encontra muita sensibilidade. “A Normal Lost Phone” conta uma história delicada, abrangendo temáticas maduras por meio de um olhar adolescente – uma fase de incertezas, de expectativas alheias, de conflitos, de descobertas.

A cada mensagem podemos crer ou desconfiar no narrador, e isso faz parte do trajeto.

Não irei explorar aqui o seu conteúdo – tanto para não dar dicas que influenciem suas expectativas quanto para evitar spoilers -, pois o desconhecimento e a compreensão gradual são elementos importantíssimos dessa experiência, e só podemos a ter uma única vez. É possível jogar novamente ou reler tudo, e há muito o que observar e aprender com a maneira que a história é contada, porém insisto: termine o jogo antes de ler a próxima parte, pois do contrário você deixará de ter essa sensação única de ir moldando sua percepção.

Abaixo o trailer:

O jogo pode ser adquirido nas seguintes lojas virtuais:
Steam (versão para PC)
Play Store (Android)
iTunes (iOS)

 

Minha experiência com “A Normal Lost Phone” (com spoilers, só leia se já jogou)

“A Normal Lost Phone” foi uma jornada intensa e maravilhosa, encheu meus olhos e meu coração. Sendo reflexo da própria história, descobrimos Sam à medida que ela descobre a si mesma (e com isso nos descobrimos também, quebrando expectativas e suposições). É um exercício de autoanálise e empatia, de imergir na intimidade de alguém e absorver e sentir as situações pelas quais ela passa.

A equipe do Accidental Queens, desenvolvedores do jogo, tiveram uma delicadeza enorme ao tecer a narrativa – indicando com sutileza as dúvidas da personagem, o passado a ser abandonado, o preconceito e incompreensão demonstrados por familiares, conhecidos e sua cidade; o acolhimento de outras pessoas – perto e distantes – que já passaram ou estão passando por situações  similares, de assumir identidade, sexualidade, passar por rejeição, e tanto, tanto mais.

É uma história repleta de carinho, e não só isso, cheia de responsabilidade – o fórum BeYou é maravilhoso e muito didático, explorando questões amplas de transição, gênero e sexualidade.

“A Normal Lost Phone” é um jogo marcante e com muito a ensinar, um jogo com causa, que busca fazer do mundo um lugar melhor – onde possamos enxergar mais uns aos outros e nos acolher na liberdade de sermos verdadeiramente nós.

 

E você, o que achou? Já jogou, ficou curioso? Conta pra nós nos comentários!


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Fundador e editor do Boas Histórias, escritor e também o resultado dissociativo de si, pulando de telhado em telhado entre prosa, poesia, romances, tragédias, absurdos, realidade e fantasia. Persegue beleza e graça no uso das palavras, degustando ritmos urgentes e a leveza do ponderar. Resumo da obra: muito apaixonado por todo tipo de história.




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