Before Sunset (“Antes do Pôr-do-Sol”) e a intimidade do diálogo
Categoria: Audiovisual · Novidades · Observatório Reflexivo
Postado por Daniel Cousland em 03 de fevereiro de 2017 às 21:28 |


Before Sunset (2004) foi um filme que assisti pela primeira vez nos meados de 2011, numa época de muitas dúvidas, incertezas e incompreensão e, ao assisti-lo, meu mar de tormenta viu a luz do Sol e pôde se acalmar, nem que fosse, só um pouco. E isso aconteceu graças às sensações de intimidade, nervosismo, cumplicidade e genuíno interesse que Celine e Jesse demonstram entre si – via diálogo falado ou expressado em gestos e olhares.

Atores Julie Delpy (personagem Celine) e Ethan Hawke (personagem Jesse) caminhando próximos por um parque de Paris, com árvores ao seu redor, em uma cena de Before Sunset (2004).

Uma grande conversa pelas ruas de Paris

Antes de tudo, o filme é uma continuação. Ele ocorre 9 anos depois de Before Sunrise (Antes do Amanhecer – 1995) tanto em história quanto na vida real. Seu roteiro foi escrito pelo diretor Richard Linklater e atores Julie Delpy (Celine) e Ethan Hawke (Jesse), o que deixa seus personagens ainda mais reais e peculiares, transparecendo um amadurecimento natural de suas personalidades. Não exagero quando digo: eles verdadeiramente nos parecem pessoas que poderíamos conhecer, ou, até mesmo, ser.

 

DEVO ASSISTIR O PRIMEIRO FILME ANTES?

Não é necessário. Enquanto o primeiro filme é ótimo e também sou fascinado por ele, eu mesmo assisti Before Sunset sem saber da existência do anterior. Apesar de contar a história dos mesmos personagens, os temas tratados em ambos abordam momentos de vida bem distintos, acompanhados de suas próprias reflexões sobre amar e viver, sendo experiências que funcionam muito bem de maneira separada.

Talvez você demore alguns minutos a mais para se relacionar com as memórias e sentimentos do casal, mas aos poucos eles irão se revelar em suas sutilezas e você acompanhará o filme de maneira muito fluida, sem sentir que está perdendo algo.

 

A HISTÓRIA DE BEFORE SUNSET

O filme tem seu início quando Celine, que mora em Paris, encontra Jesse dando a última palestra da sua booktour em uma livraria local. Ele agora é um autor de um bestseller que relata um encontro entre dois personagens em um trem europeu e que, em uma atitude inesperada, descem ambos em Viena sem o ter planejado (ela desceria somente em Paris!) e vivenciam momentos íntimos e intensos, de perdida paixão e interesse um com o outro.

Essa também é a história do primeiro filme, no qual Jesse convida Celine para um passeio após conversarem por algumas horas em um vagão durante a viagem. Ele desceria em Viena, pois iria pegar um avião de volta aos EUA no dia seguinte, mas a conversa entre ambos havia sido tão fascinante que ele se viu compelido a propor uma maneira de ficar mais algum tempo na sua companhia:

 

“Pense nisso dessa forma. Veja-se em dez, vinte anos. Seu casamento simplesmente não tem a mesma energia de antes. Você começa a culpar seu marido. Pensa em todos os caras que você conheceu e todos aqueles que você não continuou com, pensa em como poderia ter sido diferente se você tivesse escolhido um deles. Bom, eu sou um deles. Pense nisso como uma viagem no tempo, para ver o que você perdeu. Isso pode ser um enorme favor para você quanto seu futuro marido – é uma chance de você ver como realmente não perdeu nada. Que eu sou tão entediante e desmotivado quanto ele, quem sabe mais. Você fez a escolha certa e é muito feliz.”

Cena de Before Sunrise (1995)

 

Em um único dia vivem um romance tão real e visceral quanto idealizado e saído de contos de fada. Absortos na paixão ideal, não trocam números nem quaisquer outras informações, apenas combinam de se rever ali, em Viena, seis meses depois. O reencontro não acontece. Nove anos depois, quando já não havia mais esperanças, o impossível se faz surreal. O reencontro acontece.

Ao vê-la, Jesse perde a coerência das palavras. Ela está ali. E ele também está. Com um novo avião a ser pego de volta aos EUA, desta vez após o entardecer, ambos começam a conversar em um passeio pelas ruas e paisagens de Paris.

Enquanto o primeiro filme é sobre uma paixão inesperada, sobre realmente querer conhecer alguém, o segundo fala da vida, dos rumos que tomamos e como os vemos. Nove anos se passaram, muita coisa aconteceu: filho, casamento, relacionamentos, mudanças, novas dores e amores. Eles ainda são as mesmas pessoas? Ainda há sentimento? “Será que ele/a ainda pensa nele/a como eu o faço?”

Como iniciar uma conversa com alguém que passamos tanto tempo desejando encontrar? Como tocar nos assuntos que gostaríamos de falar? Como se concentrar no agora, neste momento tão único e almejado, quando queremos tanto falar sobre o passado?  Esse desafio é imposto ao casal que, em suas conversas, viajam constantemente àquele dia, descrito no livro, uma memória impraticável que veio a ressoar com tanta constância por suas respectivas vidas, vivida e revivida tantas vezes em suas mentes, uma marca impossível de se apagar. Tantas vezes circundam o assunto, novamente com aguçado interesse um no outro, no que cada um fez, em quem se tornaram, mas sem chegar ao ponto antes tão ponderado: “o que poderia ter sido? Eu estaria mais feliz?”

 

O DIÁLOGO: APROXIMANDO COM GESTOS E PALAVRAS

O diálogo, sem sombra de dúvidas, é o grande astro de Before Sunset. É ele que apresenta, desenvolve, evolui e destrincha os sentimentos e pensamentos dos personagens. O filme, ao ser uma grande conversa caminhando por Paris, utiliza essa ferramenta de forma excepcional, dando cores e tons às duas personalidades, as infiltrando e mesclando entre o casal, gerando reações e novos rumos que vão sendo tomados por suas falas – tão cheias de significados, tão carregadas de passado e emoção.

 

“Sinto que não esqueço as pessoas com as quais estive… porque cada uma tem qualidades específicas. Não dá para substituir ninguém. O que foi perdido está perdido. Cada relacionamento que termina me magoa. Nunca me recupero. Por isso, tenho cuidado quando me envolvo com alguém, porque… dói demais. Eu evito até transar… porque vou sentir saudades de coisas mundanas daquela pessoa.Tenho obsessão com pequenas coisas. Talvez eu seja louca, mas, quando eu era menina… minha mãe me disse que eu sempre chegava atrasada à escola. Um dia, ela me seguiu para saber o motivo. Eu ficava vendo as castanhas caírem das árvores e rolarem na calçada… ou as formigas atravessarem a rua… ou a sombra de uma folha num tronco de árvore. Coisas pequenas. Acho que com gente é igual. Vejo pequenos detalhes específicos de cada coisa… que me comovem e sinto saudades deles depois. Não se pode substituir ninguém… porque todo mundo é uma soma de pequenos e belos detalhes. Lembro que a sua barba tem fios avermelhados… e que o sol os fez brilhar… naquela manhã, um pouco antes de você partir. Lembrei disso, e senti saudades.”

Cena de Before Sunset (2004)

 

Outra característica marcante ao longo do filme, que complementa e acrescenta à camada da fala, se revela ao percebermos as pequenas reações e gestos de nossos protagonistas em resposta às palavras e movimentos um do outro, até quando eles mesmos não as percebem.

Através de expressões corporais podemos sentir o quanto ambos anseiam por intimidade, por maneiras de alcançar a alma alheia, por formas de demonstrar o que rumina em seus âmagos, caminhos para se fazer entender e poder evidenciar: “quero falar, te ouvir, me entender, te compreender”.

 

CHEGA O ENTARDECER

Before Sunset é uma grande conversa sobre a vida, decepções, comportamentos, crenças, amor e tudo o que existe ou poderia existir. É uma conversa íntima, nostálgica, triste, esperançosa sobre os caminhos que tomamos, as escolhas que fazemos e os pensamentos que nos acompanham. É um filme que te encanta, que lhe faz pensar, que te faz sentir as tristezas e questionamentos dos protagonistas, que o faz torcer por eles em uma torcida por nós mesmos, de que sim, quem sabe a vida pode ser idealizada, quem sabe podemos olhar para nossas cidades com olhos de turista, quem sabe podemos nos reencontrar, acender uma chama em meio ao marasmo, nos reacender, voltar a acreditar: somos capazes de amar.

 Jesse e Celine se olham enquanto estão em um passeio de barco. Ao fundo um rio de Paris. É uma cena do filme Before Sunset (2004).


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Fundador e editor do Boas Histórias, escritor e também o resultado dissociativo de si, pulando de telhado em telhado entre prosa, poesia, romances, tragédias, absurdos, realidade e fantasia. Persegue beleza e graça no uso das palavras, degustando ritmos urgentes e a leveza do ponderar. Resumo da obra: muito apaixonado por todo tipo de história.




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