Clube da Luta – Primeiras impressões de Chuck Palahniuk
Categoria: Novidades · Primeiras Impressoes
Postado por Daniel Cousland em 20 de junho de 2017 às 21:57 |


Em “Clube da Luta”, de Chuck Palahniuk, tudo começa pelo fim. A mente atormentada pela insônia. O homem nu montando troncos numa praia de nudismo – criando seu breve momento de perfeição. O cano de uma arma na garganta. Uma discussão.

 

Tyler Durden, interpretado por Brad Pitt, e O Narrador, interpretado por Edward Norton, sentados em um meio fio, sob um poste. O primeiro olha acima, para a luz, e o segundo olha para o nada, à frente. Ambos descansam após darem início ao Clube da Luta.

“Ninguém morre de verdade.”

“Tyler, você está falando sobre vampiros.”

Você busca soluções para seus anseios, para sua falta de sono, para seu desespero em existir, ou talvez não seja isso, talvez você só queira dormir, talvez você só queira perguntar algo à Tyler, talvez você só queira o ver, talvez você só se pergunte onde ele está. Talvez você não saiba quem és, talvez soubesse, mas seu pai não soube lhe dizer o que fazer da sua vida, ir à universidade, arranjar um emprego, e depois, qual o sentido? Você compra um sofá, você compra um tapete, você se acomoda e se apega a um ponto no espaço em que chama de seu, sua casa, seu cantinho. Talvez você cansou de tudo, talvez nunca viveu, talvez queira viver, talvez morrer, talvez você queira causar um impacto, dar um soco, cometer atrocidades, transcender o normal, fugir do escopo.

A escrita de Chuck Palahniuk

Para ser bem sincero eu já tinha lido algo dele antes – o conto Tripas, famoso por ter desmaiado pessoas que ouviram o autor o lendo em eventos – mas não um romance, então ainda é um tipo de primeira impressão.

Em “Clube da Luta”, Chuck Palahniuk escreve de maneira voraz, rápida e paranoica – é um livro em primeira pessoa que parte da percepção confusa de um indivíduo atormentado pela insônia (e mais). As palavras possuem ritmo próprio, por vezes até maníacas.

A narração nos permite realmente entrar na mente do personagem, ouvir seus questionamentos, suas incoerências e a intensidade que tudo toma em seus olhos. Encontramos personagens e situações inesperadas, até absurdas, com pinceladas de depressão cínica à comédia grotesca, mas que em momentos escondem sensibilidade e ternura.

O autor trabalha com uma história não linear (mas que de certa forma o é), permitindo um retrato ainda mais verdadeiro da mente e vida do protagonista, que por vezes causa estranhamentos e confusão, mas alimentam uma fome intrigante de saber mais, viver mais através dessa percepção.

 

E o filme?

Eu havia assistido a versão cinematográfica do livro alguns anos antes de o ler, e posso afirmar: são experiências bastante distintas. O enredo, no geral, é parecido e honra o livro de Palahniuk. Alguns acontecimentos diferem, certo personagem é (bem) menos desenvolvido, mas ainda assim é uma experiência e um longa fantásticos, sendo, inclusive, um dos meus favoritos.

Se você já o assistiu, leia o livro. Ele expande bastante as sensações e imersões que o filme traz. Se ainda não conhece a história, respire fundo e se prepare. Dissolva sua mente comigo e dela faça sabão.

O narrador sem nome e sua vida não ortodoxa

O livro é uma experiência psicológica, uma imersão no diálogo mental desse personagem não nomeado. Chuck Palahniuk tece uma narrativa que suga o leitor nos fragmentos que nos são apresentados – o ódio por Marla, o amor por Tyler, a busca por sentido, o desapego material, o emprego numa empresa de carros, o esquecimento, o passado, a irritação.

Conhecemos um narrador doente – infectado por uma sociedade alienada, banhada pelo consumismo -, incapaz de dormir. Remédios não lhe ajudam, não há nada que o cure, sua percepção é refém de uma insônia que o torna apático e incerto.

“A insônia distancia tudo, a cópia da cópia da cópia. Você não consegue tocar em nada e nada toca em você.”

Um médico menospreza a gravidade de seu problema e lhe dá uma lição: “se quiser saber o que é sofrimento visite grupos de apoio: de pessoas com parasitas no cérebro, doentes de câncer, pessoas com disfunções cerebrais orgânicas”. Ele vai; e lá, é salvo. A tragédia alheia lhe permite um local sagrado de conforto, de choro, de liberdade.

“Ao voltar para casa depois do grupo, sentia-me mais vivo que nunca. Não tinha câncer nem parasita de sangue; era um pequeno centro de calor em torno do qual a vida se concentrava. E eu dormia. Só um bebê dormiria tão bem. Eu morria e renascia a cada noite. Ressuscitava.”

Os encontros se tornam um vício, há grupos suficientes para todos os dias da semana. Mas um dia ele encontra Marla.

Marla

“Existe uma espécie de triângulo entre nós. Eu quero Tyler. Tyler quer Marla. Marla quer a mim.”

Ela finge como ele. Ela vai aos grupos como ele – “sem ter nada”. Ela lhe transtorna, é o reflexo de sua falsidade, da sua falta de câncer, da mentira em meio a tanta verdade: os abraços, os soluços, a honestidade dos relatos; almas tão honestas que expõem corações e medos, tão perto da morte… Ele não consegue mais dormir.

“Até esta noite; foram dois anos de sucesso até esta noite, porque não consigo chorar com essa mulher olhando para mim. E por não poder ir mais fundo, não posso ser salvo. Sinto na boca um gosto de papel picado, está toda mordida por dentro. Não durmo há quatro dias. Com essa mulher olhando para mim, sinto-me um mentiroso. Ela é falsa. É mentirosa. (…) Da próxima vez que nos encontrarmos, direi: Marla, não consigo dormir com você aqui. Eu preciso disto. Dê o fora.”

Mas Marla também precisa daquilo. Ela também precisa se sentir viva.

Tyler

O homem que extingue o marasmo da vida do narrador, que o impulsiona a se movimentar. Tyler, projecionista de filmes em período noturno, indivíduo de ideologias e ideias estranhas, um monumento à anarquia, faz uma proposição “Quero que você me bata com toda a força”. Tyler é a chave que permite ao narrador explorar seus desejos mais ocultos: dilatação, dissolução, livrar-se de tudo. Abandonar o fútil e sem significado, mutilar a mesmice, encontrar salvação.

Tyler é o nascimento de uma amizade que extrapola fronteiras, dá vida a ideias, cria novas terapias: o clube da luta.

“Se você estiver no clube da luta, tanto faz o dinheiro que tenha no banco. Você não é o que faz para viver. Você não é a sua família e não é quem pensa que é.”

Não importa com quem se luta, mas sim o que se faz – socamos a cara de um desconhecido, que se torna amigo, imaginando que é nosso pai. O narrador acha que ninguém precisa de pai para se sentir completo. Você luta por lutar.

“Você não se sente tão vivo em nenhum outro lugar como no clube da luta. Quando estão só você e o outro cara embaixo da lâmpada e toda aquela gente assistindo. Clube da luta não tem nada que ver com ganhar ou perder lutas. Clube da luta não tem nada que ver com palavras.”

Clube da luta é academia. Clube da luta é igreja. Clube da luta se vive, não se fala. A primeira regra do clube da luta é não falar do clube da luta. A segunda também. Talvez o clube da luta seja uma pergunta; talvez seja uma resposta. Talvez… Só talvez… Seja a solução.

Chegando ao fundo do poço

Chuck Palahniuk conseguiu criar uma história onde lutas, sabão em barras, falta de sono, recalls de carros, meditação, projeções de filme, grupos de apoio e anarquismo se mesclam em uma pintura única e instigante, que nos mostra uma percepção diferente sobre a vida.

Vivemos no presente e no passado, o narrador fala com o leitor sobre o que está acontecendo enquanto conta do que também já foi. A vida termina à cada minuto, sangue, machucados, reflexões internas e ideologias caminham de mãos dadas. Relances poéticos surgem quando são menos esperados – “queimaduras provocadas pelas lágrimas de alguém que chorou”.

Atos de rebeldia, mijos em monumentos e maneiras de lidar com a dor geram ações cada vez mais irreversíveis. Nada é eterno. Tudo está desmoronando.

“Pense na possibilidade de Deus não gostar de você. É possível que Deus odeie a gente. Não é a pior coisa que pode acontecer — continua ele. Para Tyler, é melhor chamar a atenção de Deus por ser mau do que não ter nenhuma atenção por ser bom. Talvez o ódio de Deus seja melhor que a sua indiferença. Se você pudesse ser o pior inimigo de Deus ou não ser nada, o que escolheria?”

“A luz entra como a frieza de uma punhalada”. E a experiência desse livro também o faz, deixando marcas em todo aquele que a lê.


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Fundador e editor do Boas Histórias, escritor e também o resultado dissociativo de si, pulando de telhado em telhado entre prosa, poesia, romances, tragédias, absurdos, realidade e fantasia. Persegue beleza e graça no uso das palavras, degustando ritmos urgentes e a leveza do ponderar. Resumo da obra: muito apaixonado por todo tipo de história.




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