“Como se Comportar” e o lirismo da banda Moptop
Categoria: Música · Novidades
Postado por Daniel Cousland em 24 de maio de 2017 às 22:14 |


“Como se Comportar”, um álbum de narrativas psicológicas sobre o que fazer ou pensar.

Ilustração da capa do álbum "Como se Comportar" da banda Moptop. Os quatro integrantes do grupo cravam uma bandeira em um monte de tecnologia antiga.

“Já são quase 5 da manhã…” – da música “Aonde quer chegar?”.

Este post começa nostálgico. E começa de madrugada.

Podemos ver músicas como a união de poesias cantadas e tocadas, como outra maneira de contar histórias, de mostrar percepções e de transmitir sentimentos. E por isso hoje falarei de “Como se Comportar” do Moptop.

No auge dos meus 14 anos (2008) me deparei com música indie rock de qualidade, de lirismo lindo, em português e com sonoridade cativante e psicológica.

Formada em 2003, acabou tendo seu fim oficializado dez anos depois. A banda acabou, mas sua música persiste. Contínuo os ouvindo mesmo agora, tanto tempo depois. Música boa de verdade é assim. Nos marca. Não se esquece. Evolui conosco e com nossa percepção.

 

A vibração de seu som

Moptop tem uma atmosfera reflexiva, autodepreciativa e, com toda certeza, pendendo forte para o lado deprimido da balança da vitalidade. Tenho um fraco imenso para materiais que abordam uma temática mais cínica e entorpecida, de um olhar triste e desanimado sobre a vida, o que explica a constância deles em meus fones de ouvido ao longo dos anos.

Meu desconhecimento sobre produção e técnicas musicais me impede de falar sobre elas, portanto falo do que sei: das letras, sensações, imersões e emoções que a música me passa. Minha visão como um admirador que escuta e se deixa levar pelo som do artista.

Com batidas ritmadas, a banda viaja por correntes de contradições: conformismos pessimistas entremeados por anseios de mudança; inabilidades de sentir com surtos de sentir demais. Tendo a inconstância humana como identidade narrativa, Moptop expressa verdade.

 

Sobre o que o álbum fala

“Como se Comportar” é o segundo e último álbum do grupo, e o título dita a temática de suas letras: um quadro psicológico sobre expectativas, de como agir, o que dizer, o que pensar, o que esperar. De si, dos outros, do relacionamento entre pessoas e entre nós mesmos.

Como uma coletânea de poemas, cada faixa apresenta uma narrativa distinta, retratando formas de pensar. Irei destacar trechos de quatro das suas doze músicas, falando um pouco do lirismo de cada.

 

Desapego

Fui levantar, não achei

Um bom motivo pra acordar

Tá tudo bem, não, não há

Com o que se preocupar

É que eu me encontrei com o nada

E acho que meu lugar é aqui

Um eu-lírico conformado com o mal estar, com o nada fazer – pois nada tem valor -, com a iminência do fim. Tanta apatia é um desapego frente às incertezas, é uma saída, um alcance de liberdade ao deixar de se preocupar. Uma ode à inércia.

Como contraponto sua sonoridade tem um ritmo vivo, ainda que blasè, que envolve quem escuta.

 

Bom Par

Eu sei

Que às vezes não sou quem

Te faz rir

Te faz sonhar

 

Eu não sei

Às vezes eu não sei

Me conter

Me comportar

 

Deixa amanhecer

Foi meu mal

Foi sem querer

Vou aprender

o que é ser

um bom par

Triste. Arrependida. O não alcançar expectativas. O não ser bom o bastante.

Poucas palavras, uma voz carregada e um ritmo belo e devagar. Elementos que formam uma mistura tão amarga. Com ela o grupo expressa uma insatisfação profunda do narrador consigo mesmo. Uma sensibilidade que aflora, uma angústia que devora.

É pura poesia.

 

Contramão

O que fazer?
Se a contramão

Te persegue, te enlouquece

Provoca, te entorpece

De tesão

De estupidez

 

Como ajudar?

Se a contramão

Se o afago do pecado

Te deixa despojado

De razão

De lucidez

 

Me pede pra ficar

Me pede pra cuidar de você

Me pede pra ficar

Pra ficar com você

E então nos aprofundamos nas vísceras da incoerência, da auto sabotagem e da contradição, aqui personalizadas como “a contramão”. O narrador faz uma retrospectiva sobre cair no fundo do poço, incapaz de resistir aos seus anseios. Busca, ao querer cuidar de alguém, uma salvação, uma âncora que lhe afaste do perigo da contramão, uma compromisso que o afaste da responsabilidade de si mesmo.

Bonanza

Olho para frente não sei bem por quê

Avanço na mesma direção

Rumo ao castigo

Penso em todos os inimigos

Que me esforcei pra conquistar

 

Olho para os lados e percebo que

Não tenho alguém pra me esquecer

Ando mais um pouco

Penso em quando era garoto

E havia tantos sonhos pra sonhar

Uma batida que remete a um caminhar de morte, aos últimos passos de alguém sem rumo, sem vida, ao “meu pobre coração que nega-se a pulsar”. Nesse caminhar tão extenso, de tantos anos acumulando mágoas, o peso sobre as costas se faz cada vez mais fatal: pregos em um caixão construído pelas escolhas do passado.

Sonhos abandonados. Inimigos conquistados. O narrador caminha a esmo, pensa no passado, desejando uma conclusão.

 

Por que ouvir?

“Como se Comportar” é um álbum que proporciona um olhar psicológico e contraditório sobre as maneiras que nos comportamos. Retrata narrativas atentas à identidade humana e suas inconstâncias, explorando características como apatia, dependência, incertezas, inadequação e perdição.

É um indie rock que se preocupa com os sentimentos expressados, com o lirismo de seu texto, com a atmosfera que busca criar. É um álbum que me permite imergir na mente de seus personagens, reverbera emoções e, na duração de cada música, conversa com quem sou, me faz ser um outro eu.

 

Você pode escutar o álbum “Como se Comportar” inteiro nos seguintes links:

Spotify | Deezer


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Fundador e editor do Boas Histórias, escritor e também o resultado dissociativo de si, pulando de telhado em telhado entre prosa, poesia, romances, tragédias, absurdos, realidade e fantasia. Persegue beleza e graça no uso das palavras, degustando ritmos urgentes e a leveza do ponderar. Resumo da obra: muito apaixonado por todo tipo de história.




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