Escrita, Significado e Memória | A magia de escrever sentimentos
Categoria: Novidades
Postado por Marcela Vitória em 10 de agosto de 2017 às 20:03 |


Já parou para pensar no quão louco é nossa mente reconhecer um conjunto de símbolos diferentes e, a partir deles, imaginar os cenários e conceitos que descrevem? E, como se não bastasse, esses conceitos têm o poder de virar e mexer com nossas emoções, fazer rir, chorar e sentir, tudo com um conjunto de traços colocados juntos. Frequentemente me encontro pensando sobre isso, sobre a magia que é juntar palavras e deixar enigmas flutuando no imaginário de quem os encontra. Sobre significado, memória, imaginário e interpretação, sobre ideias intangíveis ganhando força e sendo imortalizadas. Sobre as proporções que uma combinação de símbolos outrora desconexos podem alcançar em alguns anos.

Escrita, significado e memória

 

Escrita é revolução

 

Pode ser que a origem da nossa linguagem escrita seja fruto da pressa, um processo necessário para agilizar a contagem da colheita, atribuir significados a símbolos, traduzir um som em desenhos simples (história interessante para contar para os amigos). Na minha interpretação, prefiro pensar no ato revolucionário de que no mundo inteiro, quase ao mesmo tempo, povos com percepções e crenças diferentes, num surto de inconsciente coletivo, democratizaram a comunicação e imortalizaram suas histórias e ideias reproduzindo inúmeras combinações de signos, inventando novas formas de expressar. Graças a essas atribuições, hoje podemos divagar sobre o peso e o eco das palavras na interpretação individual.

É interessante pensar no poder de uma combinação de palavras que pode te fazer sentir feliz ou triste, sentir saudade ou projetar expectativas, seja em uma carta de amor ou uma indireta em menos de 140 caracteres. Essa magia que na batida de algumas teclas ou no contato da tinta com o papel carrega tantas camadas de interpretação.

A revolução está nas tantas possibilidades das apenas 26 letras do nosso alfabeto.

 

Significado e o que poderia ser

 

Nessa vida louca vida, memorizamos, identificamos e aprendemos significados de símbolos o tempo todo, dando valor e indexando esses signos de acordo com N aspectos – pré-definidos pela sociedade ou por nossa bagagem cultural. Diferentes palavras podem remeter o mesmo sentimento, uma expressão pode fazer lembrar de um momento bom, um título de notícia tem o poder de chocar e/ou indignar apenas pela associação com o contexto, antes mesmo de  o conteúdo completo ser analisado.

Palavras que representam sentimentos são banalizadas ou supervalorizadas, ressignificadas para novos propósitos. E, foi lendo David Foster Wallace, que passei a prestar mais atenção aos significados profundos e a força que as palavras têm no meu interior, como ilustra esse trecho do livro Ficando Longe do Fato de Já estar Meio Longe de Tudo:

Desespero é uma palavra que foi desgastada até se tornar banal, mas é uma palavra séria e estou usando-a com seriedade. Para mim, ela denota uma mistura simples – um estranho anseio pela morte combinado com um sentimento esmagador da minha pequenez e da minha futilidade, que se apresenta como um medo da morte. Talvez seja algo próximo daquilo que as pessoas chamam de pavor ou angústia. Mas é bem outra coisa. É como desejar morrer para escapar da sensação insuportável de compreender que sou pequeno e fraco e egoísta e que sem a menor dúvida vou morrer.

 

Memória é como sentir o gosto do cheiro

 

Escrever é tangibilizar os sentimentos, é ter a oportunidade de alcançar quem está tentando decifrar os próprios, é propagar entendimentos sobre ideias que só existem embaralhadas no imaginário. Conectar corações por intermédio desses significados que ultrapassam a literalidade da palavra em si. Como o estranho conforto que senti ao ler essas palavras de Wallace, um pouco mais em contato com o que nem conseguia expressar.

Um trecho de música riscado na parede ativa a memória, faz lembrar de momentos especiais ou do amargo gosto de um coração partido. A conexão pode ser coletiva ou individual, pode trazer sentimentos bons ou ruins, porque essa é, para mim, a magia da escrita: o que ela faz no imaginário, a sensação da palavra, o decifrar um sentimento e o ressonar das ideias em diferentes momentos.

Por último, um vídeo do canal Vsauce que me ajudou a articular essas ideias de um jeito que não sei explicar. Nele, Michael fala sobre a ciência do conhecimento e da memória e o fato de não termos certeza se o mundo é real ou não, é uma questão de crença. (O vídeo está em inglês, porém você pode ativar a legenda com tradução simultânea).

 

E para você, existe magia na escrita?


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é juntadora de palavras, designer e especialista em comunicação, sócia do estúdio criativo FLAMINGOwtf e agora colunista do Boas Histórias. Acredita que viver amassa a roupa e que palavras podem mudar o mundo. Escreve sobre tudo que faz o coração acelerar. Ama ouvir causos de pessoas mais velhas, sente que a experiência dá sentido e esperança para o que é contado. Lançou com a ilustradora Élin Godois o Guia de nós dois, um livro ilustrado para registrar histórias de amor.




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