Gosto se discute: reflexões sobre a construção de nossas preferências.
Categoria: Inspirações · Novidades
Postado por Juliana Koetz em 08 de fevereiro de 2017 às 14:33 |


Gosto se discute para refletir como ele é construído. Afinal, por que sentimos tanta raiva quando criticam nossas preferências?

 

Foto ilustrando o texto Gosto se discute: reflexões sobre a construção de nossas preferências. A imagem está enquadrando mãos de uma pessoa escolhendo discos (vinis) em uma loja.

 

A Guerra – Gosto se discute?

 

Quem nunca ouviu a frase “gosto é que nem olho, cada um tem o seu”?

Quando a discussão fica feia, sempre tem alguém para jogar essa carta na mesa e apaziguar a situação. Mas por que algo tão pessoal como o gosto seria causador de debates acirrados, polêmicas, intrigas e rompimentos?

Nesse texto quero convidar vocês a refletir sobre a construção das nossas preferências – tanto em seus aspectos sociais quanto em seus aspectos subjetivos, ligados exclusivamente à experiência pessoal de cada um. Pois se gosto se discute é principalmente para entender a gente e os nossos conflitos com o gosto dos outros.

O benefício de pensar sobre isso é amenizar nossas raivas, compreender melhor as motivações das pessoas ao entrarem em embates agressivos por causa do gosto, aliviar a auto-pressão que criadores em geral se impõem ao tentar agradar determinados públicos e abstrair os comentários depreciativo de haters ou pessoas que simplesmente não gostaram do que você fez.

 

O que é o gosto?

 

Algumas pessoas já têm isso bem claro em mente: o gosto não é algo sobre o que temos total controle. Na realidade, o gosto é uma das coisas sobre as quais temos menos controle. Por quê? Porque ele depende de todas as casualidades que ocorrem em nossa vida. Outras não têm isso claro porque gosto se discute apenas para brigar, mas pouco para clarear a auto-percepção.

Cores, músicas, filmes, roupas, pessoas, esportes. Nenhuma de nossas preferências foi escolhida com base em uma opinião que desenvolvemos a partir da nossa livre escolha. Nossas preferências se baseiam na conexão que criamos com coisas, pessoas e momentos.

 

Pense por um instante. Qual foi sua banda favorita na adolescência?

 

Digamos que você fosse fã de Beatles (tentando ficar neutra aqui). Como você descobriu eles?

Provavelmente o momento de descoberta estava ligado a algo muito positivo em sua vida. Um familiar que você ama, uma paixão ou amor da vida. Um momento de alegria embalado por Yesterday, a trilha sonora de um filme, a primeira música que você aprendeu a tocar ou o som que seus melhores amigos gostavam. A leveza e o momento da sua vida que fizeram os Beatles sua banda favorita, fizeram ainda mais por vocês. Construíram, quase que imediatamente, a lista de coisas que você provavelmente detesta: funk, pagode, sertanejo.

 

O contrário também pode acontecer. E se você detestar Beatles?

Sabe aquele seu/sua colega insuportável, que estava sempre empacando a sua vida, te menosprezando, ficando com quem você queria ficar, cortando a sua fala, puxando o saco de todo mundo… Enfim, aquela pessoa que você não conseguia aturar?

Bem, acontece que aquela pessoa era a maior fã de Beatles. Estava sempre vestindo a camiseta e tocando Helter Skelter naquele maldito violão. É bem provável isso tenha marcado você e, sempre que um fã de Beatles se pronunciar, você vai revirar os olhos.

 

“Não querida, não é recalque. É ruim mesmo!”

 

Defendendo a visão de que gosto se discute para desconstruir nossos preconceitos, já me deparei com muita gente revirando os olhos para mim. Músicos com um conhecimento tão avançado e uma habilidade incrível convictos que eu estava falando uma grande besteira ou só enchendo o saco.

Tudo bem, meu conhecimento sobre música não é dos mais profundos, mas não estou aqui dizendo que você não gosta de funk determinado estilo porque seu subconsciente acha que é coisa de “burro” e que você tem um preconceito incrustado no seu âmago. Em alguns casos o preconceito é o motivo, mas em outros pode ser o fato de você não ter  nenhuma experiência positiva que lhe aproximasse de determinado estilo.

O detestar pode surgir como antítese ao que você gosta, não necessariamente como um preconceito. Pode ser apenas o movimento natural, afinal, o primeiro beijo com o amor da sua vida foi embalado por Michelle e quando você finalmente encontrou um grupo de pessoas que compreendia os seus anseios existenciais, eles detestavam funk e não andariam com alguém que descesse até o chão.

 

Mas quando seu detestar for violento…

 

É bem provável que seja preconceito.

 

Shopenhauer, em A Arte de Escrever, explicita a ideia de que a violência vem da ignorância – e o preconceito não é nada além dessas duas coisas.

É uma violência porque fere parte do que o outro é. Se para você determinada música faz parte da sua história, desperta emoções, lágrimas, risos ou memórias queridas, no outro aquilo que você odeia, humilha e desvaloriza, pode significar exatamente a mesma coisa. Por isso, “a sua música favorita é uma grande bosta” é uma violência. Porque machuca o outro.

No ódio ao gosto alheio a ignorância se faz presente na medida em que ignora por completo todo esse background. No momento em que temos consciência que nosso gosto não é fruto de nossa capacidade de viver superior a dos outros, mas resultado inevitável de nossas experiências, sobre as quais não tivemos controle, passamos a enxergar o outro como um ser constituído também de suas experiências.

Assim, o outro deixa de ser inferior e passa a ser igual. O gosto do outro não é melhor ou pior. É um resultado incontrolável, tal como o seu.

 

É proibido não gostar?

 

De forma alguma. Não gostar é inevitável. E também não está escrito na Constituição ou em qualquer outra lei. Expressar o seu desgosto também não será crime, se não ferir a dignidade do outro, se não for racismo, homofobia, ódio à mulher, ao idoso, ao [forçadamente] marginalizado.

Expressar seu descontentamento com respeito, na realidade é fundamental. O debate é indispensável para a “otimização” do ser humano. Precisamos olhar para o que nos desagrada e mostrar ao mundo. Assim, os produtores de entretenimento e de arte estarão mais aptos a criar coisas que nos agradem mais, que representem nossa visão de mundo de uma forma ainda melhor. Então se você quer produzir arte, conteúdo e entretenimento, preste atenção às expressões de descontentamento por aí.

Porém, o que é indispensável nesse processo de expressão do desgosto é a consciência de que gosto cada um tem o seu, porque assim como todas as partes do corpo, não são escolhidos com total liberdade. São parte da nossa história que merece respeito e visibilidade.


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