“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” e a naturalidade do amor
Categoria: Audiovisual · Novidades · Observatório Reflexivo
Postado por Daniel Cousland em 13 de junho de 2017 às 23:02 |


Eu estava num mau humor desgraçado, mas assistir “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” me fez sorrir. E muito.

Os personagens Gabriel e Leonardo, de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho", ficam de frentes um para o outro, de pé, iluminados pela luz do sol que entra por uma janela. Eles se encaram meio sem jeito, a poucos centímetros de distância um do outro, ansiando se aproximar.

Com roteiro e direção de Daniel Ribeiro, “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” (2014) é baseado em um curta de título quase homônimo, chamado “Eu Não Quero Voltar Sozinho” (2010), do mesmo autor e disponível gratuitamente no Youtube.

Em ambos conhecemos Leonardo, um menino cego de nascença, sua melhor amiga, Giovana, que sempre o ajudou a realizar suas tarefas, como ditar o que estava sendo escrito no quadro negro da escola e o acompanhando no caminho até sua casa, e Gabriel, aluno novo que se torna amigo e interesse romântico dos dois.

Em uma jornada de descobertas, incertezas e aceitação, a história trabalha temáticas como cegueira e homossexualidade com sensibilidade e verdade, demonstrando dificuldades vividas por Leonardo em uma realidade que não é adaptada para suas necessidades básicas – como locomoção -, até a maneira como os demais o tratam, o que introduz aspectos como o bullying e a superproteção.

SER CEGO E ADOLESCENTE – Uma busca por independência

A mudança de nome para o longa, além de diferenciar os projetos, também denota uma adição temática à narrativa: um desejo de autossuficiência, de ser capaz de fazer as coisas por si, não depender dos outros para tudo – inclusive para voltar sozinho para casa.

Leonardo possui pais protetores que buscam lhe garantir o maior conforto e segurança possível, mas ao agirem de maneira excessiva acabam o impedindo de viver com mais liberdade e independência – algo cada vez mais latente no garoto. Esse anseio se manifesta em uma vontade de fazer intercâmbio – viver em um novo país, longe de tudo que conhece, uma oportunidade de ser uma pessoa nova, uma página em branco, livre das amarras e do olhar vigilante dos pais. Léo fica tão centrado nessa ideia que negligencia Giovana, e não pensa em seus sentimentos ou a falta que ele faria.

Ao mesmo tempo Léo se aproxima de Gabriel, que o incentiva a ter experiências novas: ele dança pela primeira vez, sai de casa escondido com Gabriel para “ver” um eclipse lunar e, gradualmente, começa a ter sentimentos inesperados pelo outro. Aos poucos, começa a se descobrir e se apaixonar.

A NATURALIDADE DO AMOR

Um dos fatores que observo em como reajo a uma obra é: como ela me faz sentir. Na duração do longa tive muita empatia pelos três personagens principais, seus dramas – que podem ser considerados adolescentes – evocam verdade, uma sinceridade vulnerável e bonita, própria dessa fase tão intensa.

Passei por uma imersão tão grande enquanto assistia que era como se eu tivesse quinze anos de novo, sentindo aquelas mesmas emoções. A atuação dos protagonistas são críveis e genuínas, com uma química inegável em cena.

Entre as angústias e sentimentos dos personagens, que às vezes me faziam morder um pouco os dedos, se fez muito presente a inocência do gostar de alguém. No início da história Giovana gosta de Léo, mas não sabe se seria correspondida. Léo não gosta de ninguém, mas queria gostar. Quando Gabriel aparece, Giovana se sente atraída por ele, sem deixar de gostar de Léo. São anseios e esperanças sobrepostos. A história se desenrola, os sentimentos de Léo por Gabriel, e vice-versa, começam a aflorar. A sutileza da aproximação dos dois, a naturalidade com que acontece… Tudo encanta. É pelas incertezas e receios dos três que observamos o quanto o medo de rejeição os atinge, e o quanto buscam a aceitação.

INDO EMBORA PARA CASA

“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” é um filme leve, cheio de esperança e bons sentimentos, mas que aborda temas frequentemente marginalizados pela sociedade, e que precisam ser percebidos, discutidos, reforçados.

A cada vinte e oito horas um homossexual morre no Brasil. O preconceito, não só no país, como no mundo, ainda é muito grande e precisa ser combatido. Pessoas cegas (e com qualquer outro tipo de deficiência) ainda são segregadas e possuem pouco, quando nenhum, suporte para que possam viver suas vidas de maneira satisfatória – nossos espaços, físicos e sociais, não possuem acessibilidade e acolhimento como deveriam.

Ainda há muito para se fazer, mas o filme também cumpre seu papel. Ao retratar seus personagens com delicadeza, honestidade e naturalidade, ele abre caminhos para conversa, reflexão e comunicação não só para quem já está familiarizado (ou inserido) nos temas, mas também para pessoas que podem ter a mente mais fechada ao assunto. É uma obra excelente para apresentar essa realidade. Através de obras como essa podemos, aos poucos, mostrar para o mundo que essas pessoas existem, que têm suas necessidades, que merecem respeito e são tão humanas e reais quanto os ditos “normais” e dentro dos padrões sociais.

É um filme que emociona, que ensina, que nos proporciona um olhar sobre a vida vindo daqueles que muitas vezes não são representados. É um filme que lhes dá voz ao mostrar sua realidade.

Por que assistir “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”?

A história apresentada no filme é uma jornada de descoberta – de independência, de amizade, de amor. É uma experiência que nos rejuvenesce, que nos transporta para uma adolescência inocente, de primeiras experiências, de novas sensações – que reacendem a esperança e aquecem o peito. É um filme que respeita as angústias dos personagens adolescentes, retratando-as com seriedade e compaixão, sem exageros ou menosprezos. Os temas de homossexualidade e cegueira são trabalhados com naturalidade e verdade, mostrando percepções de vidas desconhecidas por boa parte da população, aproximando dela algo que poderia lhe parecer tão distante. É uma história que inicia diálogos, quebra preconceitos e acredita em um mundo mais gentil. O filme é um abraço que encanta, acalma e nos faz sorrir, pois todo amor é natural.

Motivações do Diretor

Inspirado pelas experiências de se apaixonar pela primeira vez e do primeiro beijo, Daniel Ribeiro quis fazer “um filme sobre o amor à primeira vista, quando a atração não é feita pela aparência”. Em suas próprias palavras, ele queria “mostrar que o sentimento simplesmente está lá na pessoa”, desassociando-o da noção de atração física, focando no aspecto emocional do gostar de alguém.

O diretor destaca que uma grande força do filme é essa descoberta da homossexualidade de maneira natural. Em entrevista ao UOL, Ribeiro disse que “os adolescentes gays querem ser associados ao amor e ao afeto. Percebo que quando esses jovens contam aos pais ou no trabalho que são gays, as pessoas já imaginam o sexo. A parte romântica é esquecida. O filme é uma maneira de jovens dizerem aos pais: ‘olha, é isso o que eu sinto'”. É uma história de amor, e o amor independe de gênero.

Essa vontade de retratar personagens gays surgiu também pela falta de visibilidade e representatividade LGBT que o diretor notou no meio audiovisual: “sempre ficava incomodado com a ausência desses personagens e me perguntava: Será possível que ninguém está mostrando pessoas como eu?”.

Em todo seu repertório o diretor tratou dessa temática, desde o seu primeiro curta, Café com Leite (2007), também disponível no Youtube, onde um casal gay se vê diante de uma nova situação quando os pais de um deles morrem, deixando-o sozinho para cuidar de seu irmão caçula; quanto no mais recente, o curta “Love Snaps” (2016), ainda inédito na internet, mas já premiado em festivais, gravado inteiramente com o aplicativo Snapchat. Para 2018 Daniel Ribeiro tem planos de lançamento do longa “Amanda e Caio”, sobre a separação de um casal adolescente transexual.

“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” desejou e conseguiu cumprir um papel social ao retratar personagens pouco trabalhados, explorando homossexualidade e cegueira de maneira positiva, além de falar sobre a adolescência de maneira sensível e cativante, dando espaço e importância para essa fase marcante da vida.

Premiações

“Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” ganhou uma lista extensa de prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Teddy Award, destinado a filmes com temática LGBT, o Prêmio da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema) da seção Panorama do Festival de Berlim de 2014, e Melhor Filme pela escolha do público em festivais do México, Itália, Estados Unidos, Suécia, Canadá, Grécia, Alemanha, Eslovênia, Holanda e Brasil. Você confere a lista completa aqui.

 

Ficha Técnica

Gênero: Drama
Direção e Roteiro: Daniel Ribeiro
Elenco: Ghilherme Lobo, Tess Amorim, Fabio Audi. Lista completa.
Produção: Daniel Ribeiro, Diana Almeida
Fotografia: Pierre de Kerchove
Montador: Cristian Chinen
Duração: 96 min.
Ano: 2014
País de Origem: Brasil
Estreia: 10 de abril de 2014 (Brasil)
Distribuidora: Vitrine Filmes
Estúdio: Lacuna Filmes
Classificação: 12 anos


Audiovisual · Novidades · Observatório Reflexivo
 
Fundador e editor do Boas Histórias, escritor e também o resultado dissociativo de si, pulando de telhado em telhado entre prosa, poesia, romances, tragédias, absurdos, realidade e fantasia. Persegue beleza e graça no uso das palavras, degustando ritmos urgentes e a leveza do ponderar. Resumo da obra: muito apaixonado por todo tipo de história.




There are no comments

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *




 
BOAS HISTÓRIAS - Todos os direitos reservados 2017
Website by Joao Duarte - J.Duarte Design - www.jduartedesign.com