4 coisas que me fazem odiar amar How I Met Your Mother.
Categoria: Audiovisual · Novidades · Observatório Reflexivo
Postado por Juliana Koetz em 01 de fevereiro de 2017 às 22:19 |


Esse post contém expressões em inglês porque it’s sooooooooooo How I Met Your Mother fandom (é a cara dos fãs).

 

Filhos de Ted Mosby sentados no sofá com cara de entediados ilustrando o texto "Coisas que me fazem odiar amar How I Met Your Mother". A filha segura uma xícara em que está escrito "melhor pai do mundo"

 

Dois Alertas – não são spoilers

 

Eu soube de How I Met Your Mother tomando todos os spoilers possíveis. Basicamente, achava que a série era boba demais e disse “pode me contar o final, eu nunca vou assistir”. Então meu interlocutor descreveu os principais detalhes dos últimos episódios e os acontecimentos mais marcantes que ocorreram ao longo da série. O efeito foi imediato. Eu precisava assistir.

Hoje eu chego a sonhar com o que vai acontecer, apesar de ter passado por alguns momentos que me fizeram sentir uma culpa grande e vontade lutar contra os meus impulsos de consumir produtos da indústria cultural (mas aqui estou falando de uma sitcom). Então antes de listar as coisas que o título fala, quero fazer dois alertas: O primeiro é para quem veio aqui em busca de argumentos para desmoralizar a série. O segundo é para quem veio aqui disposto a discordar.

 

Isolamento da Cultura Dominante

Para a primeira galera: não assistir a televisão, não consumir produtos da indústria cultural, ser crítico com funk ou sertanejo universitário e desintoxicar-se da imposição dos valores norte-americanos pode ser saudável, mas até que ponto isso é eficiente na transformação da sociedade? Precisamos descer do pedestal da intelectualidade e vivenciar ou, no mínimo, consumir de forma analítica tais produções. De que maneira o “intelectual” irá se conectar ao cidadão “comum”? (e o que são essas coisas? Que mania é essa de se colocar acima dos outros?) Como pontuar com precisão os defeitos de algo que o “mundo” ama sem ser sumariamente ignorado, isolado e descreditado?

Falar mal sem se envolver é a receita perfeita para ser considerado pessimista, reclamão e arrogante. O efeito das palavras acaba sendo o desprezo por elas.
E é divertido, anyways!

 

Beware of the (se liga nas) porcarias que você ama 😉

Para os fãs: esse texto é, principalmente, uma forma de alertar que nem tudo o que gostamos é sempre bom, inclusive How I Met Your Mother. E isso é o pensamento crítico em sua melhor forma. É o pegar o que é bom e repensar o ruim.

Registrar o que você acha ruim sobre o que ama também é fundamental. Os produtores de séries, de filmes e músicas precisam saber o que mudar. E só com um feedback completo podemos esperar que daqui em diante se produza um entretenimento melhor.

Achar que algo que você ama é imune a deslizes, ético, correto, livre de maldade e preconceito… É inocente demais. Não sejamos amantes cegos, por favor.

 

 

Motivos para odiar amar How I Met Your Mother

Se você continuar a leitura aqui, leia até o final.

 

1. O machismo de Barney

 

Não precisa de mais de dois neurônios para perceber que o Barney é um completo babaca. Até porque seus amigos repetem isso incessantemente e se questionam com frequência porque andam com ele.

O que precisa é de um grande esforço para se ver livre da vontade de incriminar Barney por assédio. Sexual. Moral. Existencial. Ele é insuportavelmente machista. Ele requer um parágrafo inteiro repleto de advérbios e adjetivos exagerados explicitando a irracionalidade que a revolta contra as ações de Barney provocam. Ele é absurdamente idiota.

“Mas ele vai…” você pode dizer. Eu sei. Ele vai. 

Só que… Produção, que tal aliviar a cachoeira de chorume do início da série?

A introdução do personagem é carregada de ações depreciativas, especialmente em relação às mulheres e mais ainda a quem está fora do padrão [impossível] de beleza. O nível de incômodo é tanto que a queridice dos demais integrantes de How I Met Your Mother quase não compensam.

Mas o pior não é ser exposto a tudo isso. O pior é se ver em um diálogo e ouvir “O Barney é meu favorito, ele é muito engraçado”. Com certeza ele tem momentos excelentes, engraçadíssimos. Mas do que exatamente estamos rindo?

Me chame de exagerada se quiser, mas sinto que a série, nas primeiras temporadas, usa esse pensamento bizarro do Barney como uma ferramenta de arrancar risos e incentiva o uso do humor como justificativa para a prática deturpada de piadas e atitudes na vida real. Barney é uma inspiração para ser babaca.

 

2. A confusão Argentina X Brasil

 

Alguém mais aí achou muito estranho o fato da Robin viajar para a Argentina e se parecer com isso?

 

Robin de how i met your mother no episódio que ela vai para a Argentina

 

Eu sei que a Argentina tem praias, mas alguma coisa estava estranha, I could feel it in my heart (tava sentindo no coração). Acontece que em algum momento da sétima ou oitava temporada acontece: o momento da viagem de Robin para a Argentina é relembrada como a vez que Robin foi para o Brasil. Por que isso incomoda?

Porque ainda somos confundidos. Ainda somos vistos como mais ou menos a mesma coisa. Esse pequeno erro em How I Met Your Mother caracteriza uma cultura arrogante, presente não só na sociedade estado unidense, mas inclusive na nossa. Conhecemos vários estados dos EUA, diferenciamos o país do Canadá e se estudamos inglês, conseguimos perceber até as nuances dos sotaques. Já a África e a Ásia passam facilmente como dois ou três países.

Se por um lado nós reclamamos nas redes sociais quando esportistas ou músicos mal podem esperar para conhecer a floresta, os macacos e se perguntam sobre o nível de civilização em que vivemos, por outro, difundimos opiniões preconceituosas sobre muçulmanos, asiáticos e africanos. Os vemos a partir de esteriótipos, a pior forma de enxergar a semelhança entre as pessoas.

A visão estereotipada dos países ao sul da América do Norte perturba pela indiferença e por fazermos isso com outros povos também.

 

3. O Critério do Pagamento de Conta

 

Se você acha que é papel do homem pagar a conta e que toda mulher que discorda disso está sendo hipócrita, não precisa nem se dar ao trabalho de comentar. Eu sei que em alguns grupos sociais isso ainda é “regra”.

O fato é que eu realmente me incomodo. Trabalho entre 7 e 8 horas por dia (e cada vez mais). Fico 4 horas na estrada por dia para estudar. Mais as aulas, os trabalhos, as leituras técnicas, as leituras de entretenimento, os projetos paralelos. 

Meu objetivo é ser capaz de viver sem depender dos meus pais, dos meus irmãos ou do meu futuro marido. E isso inclui, sem sombra de dúvidas, a minha vez de pagar a conta – se uma vez eu não tenho dinheiro e meu namorado tem, ele paga. Mas o contrário também vai acontecer. 

Acontece que o Ted, por mais amável e romântico que seja, tem um critério de “essa mulher vale à pena para um relacionamento” um tanto quanto irritante: ele vai pagar a conta, mas ele quer que a mulher demonstre interesse em pagar.

Ele quer dizer “não, eu vou pagar, tudo bem”, mas ele quer que ela se disponha só para ficar encantada com o cavalheirismo. Ele crê que a mulher não deve ser pão dura, mas também crê no papel do homem nos relacionamentos e não vai deixar a sua “educação” de lado. O mais grave: ele é o protagonista da série.

 

4. O marido burro e a mulher mandona

 

Marshal e Lily são um casal encantador, um dos maiores presentes que How I Met Your Mother trouxe para seus fãs, mas o clichê “minha mulher manda em casa” já passou do prazo de validade. O pensamento do marido obediente e da mulher mandona acentua o desespero de viver em uma sociedade que estabeleça padrões de relacionamento e, por pior que isso seja, o casal maravilhoso reforça essa ideia.

Me corrijam se eu estiver errada, mas não consigo me lembrar de situações em que a opinião do Marshal se sobressaísse, fosse a “vencedora”. As duas opções são: os dois cedem ou Marshal cede.

Comecei a reparar em quanto isso era negativo e me incomodava assistindo Doctor Who, depois que meu namorado criticou um casal que eu adorava (Amy e Rory). Afinal Rory era uma pessoa que se colocava em segundo plano em função de Amy. Ela era mandona, controladora e a protagonista do relacionamento (e por coincidência também era ruiva). Em HIMTYM o quadro é muito parecido.

É angustiante que a representação de casais felizes seja repetidamente constituída por um protagonista e outro que abdica das suas vontades, opiniões, sonhos, desejos ou viva sob a orientação do outro. Um relacionamento não precisa ter um líder. E essa visão reflete nossa frustração em relacionamentos. Não estamos sempre buscando o controle ou um controlador?

E o pior: as discussões deles são baseadas na ideia de que haverá um vencedor, o que fica bastante claro no episódio no qual eles tentam fingir que não há competição no relacionamento. Por que uma discussão terá um vencedor? Mais que isso, por que um casal feliz, admirável e que nos faz suspirar baseia sua relação em competições danosas (as quais podem até mesmo prejudicar a felicidade dos seus amigos)?

 

 

É tudo sobre o que a gente é.

 

 

Eu amo HIMYM. Adoro o desenvolvimento dos personagens, dou risada com a visão irônica deles sobre aspectos da vida. Me emociono. Choro, choro muito. Inclusive se estou chorando, eu assisto How I Met Your Mother porque é muito provável que meu choro será acalentado e logo em seguida distraído por algumas boas risadas.

Mas a verdade é que todos os defeitos que podem ser encontrados na série são tão ruins porque são reflexo do que somos. Temos ainda uma cultura pautada por preconceitos. Somos arrogantes e viciados em estereótipos. Julgamos antes de conhecer as pessoas e temos nossas concepções de relacionamentos e felicidade que, no fundo, mais maltratam a nossa existência do que a fazem florescer. No fim, corremos pro Twitter para reclamar das nossas bads (sim, Twitter, porque não tem ninguém lá).

 

E mais: quando evitamos olhar uma sitcom, o que a gente evita de fato?

Não queremos identificar o nosso preconceito? Ou não queremos nos “rebaixar” ao nível daqueles que rotulamos como intelectualmente inferiores (sendo, dessa forma, preconceituosos)?

Nos últimos anos passamos por uma onda de problematização e conscientização. Por termos lido meia dúzia de livros que abrem a mente achamos que estamos livres de todos esses comportamentos. Mas o desconstruidãonismo ainda é bem superficial, já que a gente ri e não vê problema nisso. E se vê problema, desmoraliza completamente quem ainda não viu.

 

 


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