As Intermitências da Morte – Primeiras Impressões de José Saramago
Categoria: Novidades · Primeiras Impressoes
Postado por Juliana Koetz em 05 de julho de 2017 às 22:03 |


“As Intermitências da Morte, de José Saramago” foi o texto que deu origem à categoria “primeiras impressões” aqui no Boas Histórias. Através dela, queremos compartilhar sentimentos e percepções sobre autores que nunca havíamos lido – isso porque quase toda resenha que encontramos na internet tem um teor mais especialista e aqui queremos conversar com todos apaixonados por histórias, tanto quem lê e/ou escreve há mais tempo quanto quem está começando a explorar mais esse universo da literatura.

O texto já tem algum tempo, mas a intenção segue pertinente. Espero que enriqueça a experiência de vocês (:

Foto de José Saramago, autor de Intermitências da Morte, apoiando seu rosto em uma mão e olhando de soslaio para a câmera.

José Saramago em 1998, o ano que ganhou o Nobel Prize de Literatura. (AP FILE PHOTO)

Um alerta sobre Saramago

Este deveria ser um texto sobre segundas impressões, afinal As Intermitências da Morte foi minha segunda leitura de Saramago. É bem verdade que na primeira sequer cheguei na metade do livro. Hoje percebo que precisava de um alerta. Algumas coisas são ótimas quando são surpresas, outras podem não estar ao alcance do nosso repertório atual e, assim, rejeitaremos o texto.

A primeira vez que li Saramago foi para o vestibular, História do Cerco de Lisboa. Li uma versão digital e jurei que ela estivesse mal digitalizada. A experiência foi estranha e abandonei a leitura, pois tive medo que um texto tão cheio de erros fosse prejudicar meu desempenho na prova.

Anos depois me deparei com algumas referências sobre o Saramago, especialmente através do episódio 35 do podcast 30:MIN,  “José Saramago, um gajo muito amigo nosso. A partir disso decidi ler As Intermitências da Morte, desta vez sabendo que não se tratavam de erros de digitalização, mas de um estilo único e “revolucionário”, premiado com Nobel.

Ou seja, o texto é estranho mesmo, não se preocupe.

 

Sobre o que se trata As Intermitências da Morte?

Intermitências são intervalos, interrupções momentâneas. Acompanhada de “da Morte”, a palavra compõe o nome perfeito para a obra de Saramago. Quem decidir embarcar nessa aventura literária (aventura porque sai da comodidade, é um autor que não escreve conforme o padrão), irá se deparar com uma história sobre a interrupção temporária da morte.

Durante a leitura comentei alguns pontos da história com outras pessoas. Era muito interessante ver como as mais diversas possibilidades surgiam em suas mentes. Antes mesmo de começar o livro, comentei com meu irmão a premissa do enredo. Seu questionamento: “O que acontece com os envolvidos em um acidente de carro?”

Saramago desbravou todas as suposições com as quais me deparei em tais conversas. Mesmo sendo um livro curto, de pouco mais de 200 páginas, ao final da leitura senti que as expectativas criadas foram todas satisfeitas.

 

Dificuldade de leitura

No começo pode ser um pouco complicado de aceitar o estilo de Saramago, mas aos poucos você se acostuma e não repara mais na falta de parágrafos (sim, nem parágrafos), travessões, parênteses e outras ferramentas de escrita. Sobre os parágrafos: eles podem durar três, quatro páginas. Ou até mais. Porém, isso não deve causar dificuldades – exceto se você tiver metas de leitura por contagem de parágrafos. O problema pode surgir com a presença de algumas palavras e metáforas utilizadas pelo autor as quais requerem “um pouco mais” de conhecimento prévio.

Isso pode incomodar quem não possui tais conhecimentos e não tem o costume de pesquisar. Caso não seja um empecilho ler com o Google aberto, você não terá dificuldades. Porém, se não quiser pesquisar, há dois caminhos: não ler ou ler aceitando que não compreenderá tudo. Vale acrescentar que não são referências muito complexas e que a leitura não será tão prejudicada. De qualquer forma, sempre é bom entender ao máximo o que lemos, certo?

Destaco uma referência complicada para compreender logo no início do livro.

“A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia. Sangue, porém, houve-o, e não pouco.”

Átropos é a figura mitológica grega responsável por cortar o fio da vida. Talvez você lembre dela devido àquela animação maravilhosa da Disney.

Três personagens do filme de animação da Disney "hércules" manuseiam o fio da vida prestes a cortá-lo. Imagem ilustrando a citação do livro Intermitências da Morte de José Saramago em que cita a Átopos.

 Animação Hércules, 1997, Disney.

Então esse trecho estaria dizendo que a virada do ano não matou ninguém, como se a entidade que corta o fio da vida, sorrindo, tivesse resolvido guardar a tesoura por um dia. “Sangue, porém, houve-o, e não pouco.”

Como comentei, não são referências tão complexas, mas estão lá. Com um pouco de pesquisa é possível compreender seus significados.

 

Voz e Estrutura

Tive mais experiências de análise estrutural no cinema e geralmente leio com intuito de divertimento, mas venho me empenhando mais nesse sentido nos últimos tempos diante da literatura também. Então sinta-se livre para complementar e dar a sua opinião.

O narrador conversa com o leitor. Vai além: percebe suas reações e pensamentos. Em alguns momentos encontrei contradições na história e discordei de algo dito. Em seguida, ele me respondia. Pelo que lembro o narrador conversou comigo em todas as situações que se apresentaram. É impressionante a habilidade de Saramago em transparecer a conversa, expor dúvidas e resolver possíveis conflitos de enredo ou premissa.

O narrador também se atém à descrição dos fatos com pouco julgamento, passando maior credibilidade. É bem diferente de livros completamente parciais, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que ouvimos somente a versão incontestável do morto. Em Intermitências da Morte o narrador se mostra imparcial, expondo a interpretação dos céticos, dos fanáticos, dos ufanistas e das pessoas que só querem “descansar em paz”.

O próximo ponto exemplificarei mais adiante, para não submeter você a um spoiler aqui, mas logo nos primeiros capítulos me deparei com a sensação de que estava lendo algo irrelevante para o enredo. Duas, três, quatro páginas falando sobre algo que parecia não fazer diferença alguma para a trama principal. Porém, não desisti da leitura e me comprometi em entender o que queria Saramago (afinal, ele tem um Nobel. Confie, ele sabia o que estava fazendo!). Aos poucos fui me dando conta que a explicação, a razão pela qual algo faz parte da história, surgiria depois.

Percebi que minhas leituras e consumo de histórias em geral são focadas em enredos que primeiro me munem de razões para um acontecimento. Por exemplo, primeiro a história apresenta mocinho e mocinha. Quando estou familiarizada com suas personalidades e necessidades, acontece o encontro. O encontro, então, faz todo sentido. No caso de Intermitências da Morte diversas vezes o motivo pelo qual algo está na história aparece depois da apresentação desse algo. Um capítulo dá sentido ao anterior e isso é incrível.

 

Soft Spoiler Estrutural

Quero exemplificar o que disse sobre estrutura não-linear, então deixo este aviso de spoiler bem leve.

Saramago inicia o As Intermitências da Morte pintando o quadro geral do que estaria acontecendo. Ele se remete aos principais eventos, como os relacionados à calamidade pública e à família real. No segundo ou terceiro capítulo ele começa a falar de uma família pobre e sua realidade.

Demora algum tempo até que essa descrição se entranhe com o restante do enredo. Talvez eu não tenha sido “rápida no gatilho” e um leitor mais experiente consiga compreender a conexão com mais agilidade. Porém, precisei de boas páginas até entender que o que se passava com essa família, simples e aparentemente insignificante para a história, era um retrato do que acontecia no quadro maior. Muitos eventos do livro são desencadeados pelo que acontece com ela.

 

Reflexões sobre a morte

Outra elemento que chama muita atenção no livro são as reflexões sobre a morte. Há um capítulo dedicado à tentativa que, no livro, perdura por incontáveis anos em reconstituir a face da morte. O livro, assim, a personifica.

Sua descrição física fala de uma “agonia dos ossos” e de um “sorriso permanente’. Compara, também, sua fragilidade diante de um corpo completo. A morte, ao lado de um ser humano que tenha também carne, não apenas ossos, parece vulnerável.

Além dessa reflexão física, outra ideia relacionada ao seu “poder” aparece no livro: a jurisdição da morte. Afinal, a morte que mata os humanos não é a mesma morte que mata os animais. São entidades diferentes, logo, interferir no setor de atuação de uma colega poderia lhe trazer problemas.

As reflexões acerca da morte só estão presentes aqui porque aguçam a curiosidade. A experiência de lê-las entre o enredo é muito mais completa. Fazem tanto sentido quanto músculos preenchendo os espaços entre os ossos. São o bônus do essencial.

 

Reflexões sobre a vida

O livro de Saramago é uma reflexão sobre a vida. Intermitências modifica apenas um “detalhe” sobre a natureza da vida, por um período curto e com delimitação territorial, mas consegue ser fonte de profundas reflexões sobre o que rege nossa cultura e comportamento. E, apesar do texto fundamentar-se nas premissas da morte, Saramago preenche o leitor de pensamentos positivos, tal qual a filosofia do narrador, afinal “As esperanças têm esse fado que cumprir, nascer umas das outras…”


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