Kafka à beira-mar – Primeiras Impressões sobre Haruki Murakami
Categoria: Literatura Inspiracional · Novidades · Primeiras Impressoes
Postado por Daniel Cousland em 04 de fevereiro de 2017 às 00:25 |


Kafka à beira-mar foi, e é, uma experiência única. Pessoal, intensa, lúdica, triste, profunda. É um livro sobre existir. E existir é tarefa muito complicada. 

Foto de um gato laranja com listras pretas, deitado com a barriga em um chão de concreto. A foto ilustra o texto de Kafka à beira-mar pois a história possui gatos em destaque durante partes do livro.

Haruki Murakami nos introduz à narrativa apresentando o autonomeado Kafka Tamura, um menino de 15 anos que deseja sair de casa, e seu amigo, o menino chamado Corvo. Em um prólogo que nos põe, metafórica e “literalmente”, no meio de uma tempestade de areia, o escritor nos convida a vivenciar essa experiência através da narração em primeira pessoa de Kafka.

O garoto possui uma visão distinta e reflexiva sobre o mundo, cercada pelas incongruências e mistérios de seu passado: um pai “excêntrico”, opressor e distante; e uma mãe que levou sua irmã embora, abandonando-o quando tinha quatro anos – seu rosto já esquecido, apenas uma face em branco. Tais traumas permeiam sua maneira de pensar, falar, viver.

 

— Muito bem, imagine uma tempestade de areia muito, muito violenta — diz ele. — E esqueça por completo todo o resto.

Sigo as instruções e imagino uma tempestade de areia muito, muito violenta. Esqueço por completo todo o resto. Esqueço até que eu sou eu. Esvazio-me por completo. Logo, as coisas começam a emergir. Como sempre, o menino e eu partilhamos essas coisas sentados lado a lado no velho sofá de couro do escritório de meu pai.
— Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera — começa a dizer o menino Corvo.

 Desde o início o autor nos informa: aqui iremos usar nossa imaginação.
Tenha a mente aberta, feche os olhos, se deixe levar.

 

A história de Kafka à beira-mar é contada através de duas perspectivas que se intercalam a cada capítulo: uma em primeira pessoa, a de Kafka, e outra em terceira que, de início, relata acontecimentos de um incidente incompreensível ocorrido décadas atrás, e aos poucos é substituída para acompanhar a rotina de um homem idoso chamado Nakata. Estes são os dois protagonistas da obra que irão, através de experiências de vida tão distintas, texturizar o mundo à sua volta, dando-lhe voz, dando-lhe cor, dando-lhe sentimento e sentido (ou, muita vezes, a aparente falta dele).

 

AVISO: O SOBRENATURAL ESTÁ PRESENTE

Kafka à beira-mar é um livro que considero extremamente realista, denso e ponderado na forma em que é contado. Os diálogos, as reações, as construções, todas são repletas de detalhes e verossimilhança. Mas isto não quer dizer que fatores sobrenaturais não possam estar inclusos.

Evitando dar spoilers, não darei um exemplo sequer, mas caso você não goste de nada que fuja da realidade, já saiba que aqui isso ocorrerá. Ainda assim, eu continuaria indicando o livro da mesma forma, mesmo pra quem realmente não gosta de nada que fuja do normal. Enquanto muito é realista, há muito do surreal. Então… permita-se acreditar. É uma experiência de leitura que te compensa a cada momento.

Como um aperitivo ao mistério do surreal presente na obra, sugiro a pergunta: por quê tem peixes na capa do livro? E por que a imagem do texto é um gato?

Quando eles entrarem em cena terá valido a pena não saber de antemão. Vale, e muito, a surpresa.

 

KAFKA À BEIRA-MAR:
UMA JORNADA DE AUTOCONHECIMENTO.
E A EMPATIA DO OBSERVAR.

Kafka é um garoto atormentado em uma fase de vida complicada, no auge da adolescência, no epicentro de dúvidas e angústias. Vê-se perdido, sem lugar, sem ter onde pertencer. Ele sai de casa sem destino, sabendo apenas uma coisa “Tenho de sair daqui de qualquer jeito. Isso é indiscutível”.

O garoto foge de casa, foge de tudo que aquele local representa, foge de uma profecia. Viaja pelo Japão. Vai parar em uma biblioteca. Ao longo desse caminho conhece personagens completos, de personalidades intensas e profundas que instigam sua observação ao detalhe e sensibilidade. Provocam-lhe questionamentos. Relacionam-se, suas figuras, falas e histórias, ao âmago de questionamentos em giro contínuo na mente do menino. Cada interação com esses indivíduos é carregada de significado, inundada de emoções que afloram, ponderações que surgem.

 

— Não. Eu não vejo tevê.

Ela franze o cenho. Em seguida, me observa com curiosidade.

— Não vê? Nunca?

Sacudo a cabeça, negando. Ou devia concordar? Aceno, concordando.

— Já vi que você não é de falar muito. E quando resolve falar, tudo o que diz cabe numa única linha. Você é sempre assim?

Sinto meu rosto avermelhar. Não sou de falar muito porque sempre fui assim, claro. Mas a instabilidade da minha voz, que ainda não se firmou de maneira definitiva, é outra razão que me leva a ser lacônico. Normalmente, minha voz tem um timbre grosso, mas às vezes desafina de forma espetacular. De modo que faço o possível para não falar muito.

 

São personagens marcantes. Complexos. Cada qual com suas crenças e visões de mundo muito distintas, que, ao compartilhá-las com Kafka, expandem o livro de maneira muito rica.

 

— Quero ir para a Espanha qualquer dia — diz *****.

— Espanha? Por quê?

— Quero participar da guerra civil espanhola.

— Mas a guerra por lá terminou há muito tempo.

— Sei disso. Lorca morreu e Hemingway sobreviveu — diz *****. — Ainda assim, tenho o direito de ir à Espanha e de participar da guerra, não tenho?

— Metaforicamente?

— É óbvio! — diz ele franzindo o cenho. — De que outra maneira um indivíduo de ************************ e que raramente sai de Shikoku haveria de participar da guerra civil espanhola?

Asteriscos evitando spoilers.

 

UMA JORNADA DE FAZER O QUE É NECESSÁRIO.
E ENSINAR.

Noutro lado da narrativa vemos a vida de Nakata, idoso, analfabeto, e, como o próprio diz, “Nakata é especialmente fraco da cabeça”. Acompanhamos suas dificuldades e rotina detetivesca peculiar – recuperar gatos perdidos pelo bairro de Nakano – que o levam a um encontro inesperado que poderá mudar o curso de sua vida, propelindo-o para fora do local em que morou por muito tempo.

Em seu caminho também encontra personalidades diversas que poderão ajudá-lo em suas dificuldades (imagine só se locomover por uma grande metrópole sem saber ler?). Nakata, em toda sua simplicidade e caráter tenro, deixará marcas profundas naqueles que o conhecem. Um senhor calmo, genuíno e bondoso que leva em sua vida características e valores há muito esquecidos pela pressa de nossos tempos.

 

CONCLUINDO A LEITURA

Kafka à beira-mar é um livro longo, o qual demorei muito tempo para ler (em especial pois fiz uma leitura diferente dele, onde reescrevia letra por letra vários trechos que eu gostava, assim praticamente o li duas vezes). Era uma presença constante nos meus pensamentos. Era sempre “o livro que eu estava lendo”. Desde o início até chegando em seus momentos finais eu só queria poder continuá-lo indeterminadamente.

A prosa de Murakami é poética, sensível, alcança camadas profundas em mim. São palavras que tomam forma e se adentram, acrescentam ao que sou. Uma narração de reflexões, de observar, de um olhar ponderado que nos faz ver o mundo, e a própria leitura, de maneira mais lenta, que nos leva a saboreá-la, alongando sua existência.

Com essa obra prima, Kafka à beira-mar, Haruki Murakami conta uma história sobre tentar encontrar seu lugar, e, sobretudo, se reafirmar. Encontrar maneiras de viver, independente do quão marginalizado você possa ser. Encontrar pessoas com quem contar, com quem possamos nos relacionar, dialogar de maneira plena. É sobre encarar traumas, conviver com o negativo, buscar superação. É, sobretudo, como falei no início, existir.

 

— Há apenas uma coisa que quero de você — diz ******. Depois, ergue a cabeça e mergulha o olhar no meu. — Quero que você se lembre de mim. Se você, apenas você, se lembrar de mim, não me importo que o resto do mundo me esqueça.

 

E jamais esquecerei. Kafka, Nakata, Sakura, Oshima, Sra. Saeki e Hoshino. Todos tão peculiares, vivos, improváveis, genuínos, reais.

 

UM ADEUS QUE TE ENCONTRA À CADA ESQUINA

Minha primeira impressão de Murakami não poderia ser melhor. Eu me apeguei ao livro, de maneira intensa, atrelando-o visceralmente à minha alma. Vivi com o mesmo. Ele me acompanhou por muito tempo. Senti cada palavra impressa. Eu olhei o quadro. Eu senti o vento. Eu tentei, mesmo sendo incompreensível e que muitas vezes “não devamos tentar entender”, eu tentei… E através de todos os personagens, suas emoções e histórias… Entendo um pouquinho mais o que é viver.

Kafka à beira-mar será um dos poucos livros que tenho a absoluta certeza: irei ler muitas vezes. É um daqueles livros do qual posso dizer: “esse me entende”. Um livro que, mesmo depois de lido, permanece em você.


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Fundador e editor do Boas Histórias, escritor e também o resultado dissociativo de si, pulando de telhado em telhado entre prosa, poesia, romances, tragédias, absurdos, realidade e fantasia. Persegue beleza e graça no uso das palavras, degustando ritmos urgentes e a leveza do ponderar. Resumo da obra: muito apaixonado por todo tipo de história.




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