De escritor para escritor: não insista em ler livros ruins
Categoria: Dicas de criação · Novidades
Postado por Daniel Cousland em 07 de junho de 2017 às 20:54 |


Penso que existem quatro fontes principais das quais bebemos na hora de escrever: a prática da escrita, conteúdos que consumimos (filmes, séries, quadrinhos etc.), experiências de vida, e leituras passadas. Claro, leituras também são conteúdo, mas na arte da escrita elas têm impacto fundamental e intrínseco: são os exemplos do que podemos fazer, representantes do que almejamos alcançar. Assim, neste texto vou focar somente em literatura – e porque não insistir em livros ruins.

Jovem deitada em um tronco de árvore, acima de um lago verde, com um livro tapando seu rosto.

É essencial sermos um pouco chatos nas escolhas do que vamos ler. Livros tomam um tempo prolongado, são palavras que ressoam em nossa mente, se alojam – cápsulas com as quais entramos nos pensamentos de alguém. E isso tem impacto. Não significa que tornarão nossa escrita pior (mas podem), porém não vejo benefícios em fazê-lo. Já ouvi argumentos de que “é bom ler coisas ruins para saber o que não fazer” ou “para ter com o que comparar e saber o que é bom”. Ler coisas ruins não vai lhe ensinar como escrever bem. Ler coisas boas sim.

Comecei um livro ruim… e agora?

Inevitavelmente livros ruins cairão em nossas mãos, seja por indicações ou acaso do destino. Pensando nisso, ao iniciar uma leitura defendo o seguinte: uma quantidade mínima de páginas, um “dar uma chance” para o(a) autor(a), permitir que ele(a) me convença a continuar, mesmo com um um início fraco ou desinteressante – até mesmo obras-primas já sofreram desse mal. Quem já não recebeu uma indicação acompanhada de “olha, o começo é bem chato, mas vai lendo que fica bom”? E às vezes fica – mas você têm decidir se vale o esforço.

Se você pesquisou antes, se a ideia do livro lhe atraiu, se alguém que você confia muito no gosto amou a história… Se permita insistir um pouco mais. Em dada altura já é possível identificar vislumbres de que gostaremos daquele livro ou não. E aí decidimos se vamos seguir em frente. Mas se for ruim, deixe para lá. Meu limite pessoal fica em torno de 50 páginas, com raras exceções. Se não me convencer, parto para campos melhores.

Destaco, porém, que às vezes não é a questão de qualidade da obra, mas sim a percebida por nós. Acontece muito com clássicos, começamos a leitura, é chata e complicada, nos cansa e desistimos, mesmo tantos críticos e amigos falando bem. Pode ser o caso de não termos a maturidade para aquele livro, ao menos não naquele momento. É importante reconhecer essas situações, entender os méritos que outros veem na obra, e a revisitar na hora certa para nós.

Insista em ler livros que lhe fazem ser mais

Já ouvi pessoas que insistem em ler livros ruins até o final – mesmo odiando a experiência, apenas por querer terminar o que começou. Mas qual a vantagem? Ela adiciona algo em sua vida? Penso que no máximo ela o ilude a achar que sim. Sinto que uma literatura boa edifica a alma, nos faz refletir sobre nós mesmos e o universo, nos apresenta novas percepções de vida, expande nossa experiência humana. Elas desafiam, ensinam, questionam, mexem com nosso cerne e nos fazem ser mais.

Literatura boa não é necessariamente difícil ou complexa. Ela pode ser uma bela caminhada no parque, simples, com leveza e com um clima agradável, ou uma tempestade no meio do oceano, cruel e devastadora, nos arrancando certezas.

A qualidade de uma obra está na bagagem que ela traz: temática, personagens, enredo, estrutura, descrições e sentimentos. É um todo que lhe dá sentido. E está aí a importância de se ler obras e autores bons, que você, em sua observação crítica e sentimental, sente serem bons. A bagagem desses livros se torna parte de nossa bagagem também. Eles são aulas, cursos, graduações completas – demonstram maneiras de se criar diálogo, de se pensar em metáforas, de descrever, de costurar histórias, de sentir. Podemos aprender através de exemplos bons, de autores que começamos a admirar. Não há porque investir em livros ruins.

Cada livro ruim que lemos acaba sendo um livro bom a menos em nosso repertório. Um peso que não precisava estar lá. Ler algo ruim toma tempo, tempo demais. E na vida queremos crescer, não ficarmos parados, com uma âncora em nosso pé que não nos deixa avançar. Leia autores clássicos, leia autores contemporâneos, leia autores nacionais, leia literatura de qualidade, se desafie e conheça mais. Literatura boa dá asas, inova, traz liberdade e cria uma escrita melhor.

Mas não se preocupe, mesmo se já ficamos muito tempo à deriva no mar, nunca é tarde demais – ao lermos algo novo que nos sublima podemos voltar a navegar.


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Fundador e editor do Boas Histórias, escritor e também o resultado dissociativo de si, pulando de telhado em telhado entre prosa, poesia, romances, tragédias, absurdos, realidade e fantasia. Persegue beleza e graça no uso das palavras, degustando ritmos urgentes e a leveza do ponderar. Resumo da obra: muito apaixonado por todo tipo de história.




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