Para você não se perder no bairro – Primeiras Impressões sobre Patrick Modiano
Categoria: Novidades · Primeiras Impressoes
Postado por Daniel Cousland em 06 de maio de 2017 às 00:17 |


“Para você não se perder no bairro”, de Patrick Modiano, é uma jornada que se inicia em mistério e evoluí ao destrinchar memórias tão fortes quanto vagas. É um livro de 144 páginas que envolve o leitor em um conflito, de esquecimento e lembranças, de aceitar e negar.

Fotografia de um bairro das ruas de Paris, com prédios amarelados ao fundo, uma avenida de asfalto chumbo forte com faixa de segurança, barracas de fruteiras com lona de teto colorido branco e vermelho, e luzes de arquitetura clássica. A imagem ilustra o texto "Para você não se perder no bairro", primeiras impressões de Patrick Modiano.

Um barulho de telefone, súbito, ameaçador, interrompe um sono tranquilo. É um sujeito desconhecido que deseja devolver sua caderneta de endereços, perdida sabe-se lá quando ou como, a qual você já nem utilizava, mas ainda conservava – com números datando de mais de trinta anos atrás – junto a si. Ele quer lhe encontrar. Diz estar perto da sua casa, e que, se possível lhe entregaria agora mesmo. Não, você decide, vamos nos encontrar em outro lugar.

E assim “Para você não se perder no bairro” tem início, obra do francês Patrick Modiano, vencedor do Nobel de Literatura de 2014. Jean Daragane, o protagonista que iremos acompanhar, é um escritor recluso na casa dos sessenta anos, que lançou seu primeiro romance há muito tempo. Tanto tempo que ele só se lembra de dois capítulos – os dois primeiros, que ficaram de fora da versão publicada. Através dessa ligação inesperada, Daragane adentra um caminho sem volta, onde revelará seu estado mental – paranoico, angustiado, constantemente querendo sair pelas portas que havia entrado – ao encarar fragmentos do passado.

 

Ele já não é mais o mesmo

“Se fosse alguns anos atrás, ele demonstraria, nessa hora, aquela amabilidade que todos então lhe atribuíam, e diria: ‘Dê-me um tempinho para tentar esclarecer esse mistério…’ Mas tais palavras, agora, não lhe ocorriam.”

À medida em que a história prossegue se torna claro: há algo diferente na maneira que Daragane vê o mundo e se relaciona com as pessoas. Ele se dissocia de seu passado, de quem já foi, e se vê como uma pessoa que não mais se reconhece, estranhando alguns de seus próprios comportamentos – como aceitar encontrar esse desconhecido para um café.

Se ele já não se importava tanto com a caderneta, por que se dar ao trabalho de ir vê-lo? Mas ele tem meu endereço, pensa, arranjando justificativas que o levem a querer solucionar a situação dessa forma. O que ele não sabe é que esse é o começo para uma análise ainda mais profunda sobre si. Se outrora fora obcecado por seu passado, agora o evitava. Talvez essa caderneta o faça mudar.

 

Sensação de proximidade no olhar

“Sob a luz da lâmpada, observou as olheiras e um tremor nas mãos dela. Pareceu-lhe mais pálida do que no momento em que lhe abrira a porta.”

“Para você não se perder no bairro” é escrito em terceira pessoa, com poucas intervenções da segunda, nas quais o narrador se direciona ao leitor de maneira indireta, usando-o de exemplo: “como se você se agarrasse a uma bóia de salvação”. Mas o mais marcante é a maneira sensível, detalhista e próxima que o autor faz nos sentirmos dentro das cenas de diálogo, como uma câmera, nos mais diferentes ângulos, tonalizando atmosfera, linguagem corporal e expressões faciais do locutor pelo olhar do protagonista. Vemo-nos pairando diante de suas faces e maneirismos, em conversas imersivas de grande intensidade, que causam incerteza e apreensão: uma proximidade que incomoda, que nos faz desconfiar.

 

Olhar sobre a vida

“Avançava deslizando, levado apenas pela brisa e pelo peso do próprio corpo. Chocava-se com pedestres que avançavam em sentido contrário e não tinham tempo de desviar. Pedia desculpas. Não era culpa deles. Normalmente era mais atento ao caminhar na rua, sempre pronto até a mudar de calçada se visse de longe algum conhecido que pudesse abordá-lo. Aprendera que somente em ocasiões muito raras cruzamos com pessoas que gostaríamos realmente de encontrar. Quantas vezes isso ocorre? Duas ou três vezes ao longo da vida?”

Pensamos durante nossa vida inteira. É inevitável. Ponderamos sobre nosso cerne, sobre nossos arredores, sobre o que tudo significa. Jean Daragane faz o mesmo. Tendo alcançado a velhice, seus fluxos mentais voltam sua atenção ao que já foi, às relações do que aconteceu no caminhar de sua vida, nos momentos, às vezes recorrentes, que viemos a vivenciar: alterações na maneira de pensar, interações definhando, pessoas se afastando, contrações musculares e as confissões que as sucedem (ou não). Tão vagos, tão claros… “detalhes desordenados que costumam nos perseguir em noites de febre”.

No decorrer da obra suas observações surgem mediante situações que, como faíscas, iluminam o leitor sobre o fluir intelectual do personagem, mostrando uma lente própria de ver a vida.

 

Paranoia e Investigação

Com uma narrativa extremamente psicológica, Patrick Modiano nos presenteia uma persona complexa, evasiva, repleta de apreensões, incertezas e consciente de sua circunstância. Desde o momento que recebe aquela ligação perturbadora, sua mente principia conjeturas cada vez mais impetuosas sobre os motivos do homem que a achou e deseja o encontrar.

Desconfiança no próximo e em si mesmo são intercaladas entre reflexões que, ora veem sua verdade interna materializada, de que os outros “realmente estarão me perseguindo”, ora veem o oposto, “eu estava exagerando, não devia tê-lo tratado de tal maneira, é um homem tão gentil…”.

Estas contradições são exploradas quando Daragane inicia uma investigação, buscando solucionar mistério que o próprio desconhece a natureza. Impulsos de ler dossiês se mesclam com vontades de rasgá-los e pô-los fora. Uma batalha constante entre o anseio de saber e a vontade de esquecer tudo. Assim, quem sabe, se veria livre de toda aquela situação.

 

Esquecimento e Reminiscências

Todo vencedor de Nobel recebe, além de uma medalha de ouro e uma soma de dinheiro, um diploma com uma citação do por que sua obra (a totalidade dela) foi premiada. A frase elaborada para Modiano foi:

“Pela arte da memória com a qual ele evocou os mais inapreensíveis destinos humanos e descobriu o mundo real da ocupação [nazista na França]”

Em reação ao prêmio o autor emitiu uma fala muito interessante, contida no próprio “Sobre o Autor” do livro, na qual diz estar escrevendo o mesmo livro há quarenta e cinco anos. Em “Para você não se perder no bairro” o caso não é diferente, e “a arte da memória” citada pela Academia Sueca tem importância primordial na narração, na forma do que foi esquecido e do que será lembrado – uma batalha do inconsciente que teima em suprimir, em nublar, em proteger.

Com descrições ricas de um antes distante, a relação entre presente, pretérito e memória se fazem notáveis ao longo da obra – uma viagem mental que busca alcançar o que já foi, tentando entender o passado, as razões de ter sido e os seus impactos. Daragane viaja por sua velhice, juventude adulta e infância, de forma não linear, com saltos temporais sem qualquer ordem distinguível. Ao acompanharmos esse emaranhado de lembranças é possível sentir essa arte da memória, matizada de amargor e ausência, que assombra e confunde narrador tanto quanto leitor.

 

Encerrando lembranças – Para você não se perder no bairro

No início da leitura comecei a pensar que este era um livro para ser lido em uma única sentada. O mistério e a tensão crescem de forma exponencial do início até metade, parecendo muito um romance policial, com o leitor igualmente ansioso por descobrir o porquê de tudo. Ao final já não pensei ser o caso. No transcorrer da leitura, e em proximidade do fim, há uma mudança atmosférica da razão de ser do livro. Não o li de uma só vez, tendo separado a leitura em algumas sessões, o que talvez tenha fortalecido essa impressão, pois vivi mais tempo com ela em meus pensamentos, percebendo de maneira prolongada essa mudança.

“Para você não se perder no bairro” é uma narrativa sobre lembrar, sobre experienciar percepções atuais, relacioná-las com antigas, e explorar o inconsciente. É notar os lugares, pessoas e detalhes que nos cercam e como somos marcados por eles. É sentir, com um olhar atento, o diálogo que nos envolve. É uma história sobre o caminho, não a resolução. Uma investigação misteriosa do enigma que é nossa memória. Um questionamento perpétuo. O que aconteceu?

Capa do livro "Para você não se perder no bairro", mostrando um mapa cartográfico de Paris, com cores predominantes de branco (as ruas), amarelo e vermelho (casas e prédios) e verde claro (água, rios etc).

“Para você não se perder no bairro”, edição de 2015, pela Editora Rocco (144 páginas).


Novidades · Primeiras Impressoes
 
Fundador e editor do Boas Histórias, escritor e também o resultado dissociativo de si, pulando de telhado em telhado entre prosa, poesia, romances, tragédias, absurdos, realidade e fantasia. Persegue beleza e graça no uso das palavras, degustando ritmos urgentes e a leveza do ponderar. Resumo da obra: muito apaixonado por todo tipo de história.




There are no comments

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *




 
BOAS HISTÓRIAS - Todos os direitos reservados 2017
Website by Joao Duarte - J.Duarte Design - www.jduartedesign.com