Reescrever e sua importância – a busca pelas palavras certas
Categoria: Dicas de criação · Novidades
Postado por Daniel Cousland em 18 de maio de 2017 às 22:08 |


“Escrever é reescrever”, de Hemingway a Nabokov, muitos autores abordaram o assunto ao falar de seus processos de escrita. De início essa noção me aborrecia, soava trabalhosa. Para que reescrever se o texto já parecia tão bom no primeiro rascunho? Mas Hemingway reescreveu o final de “Adeus às Armas” mais de 39 vezes por algum motivo, certo?

Fotografia de uma pessoa sentada, segurando uma caneta e realizando anotações em um caderno sobre um livro, no que aparenta ser um banco de praça. Esta foto ilustra o texto "Reescrever e sua importância - a busca de palavras certas".

“Encontrar as palavras certas”, foi a resposta do autor em entrevista ao The Paris Review.

Escrever é subjetivo, cada escritor o fará ao seu jeito, de acordo com suas experiências de leitura, prática e revisão. Ser escritor é se construir escritor, aprender a cada novos trechos postos no papel, a cada referência adquirida. Em dado momentos iremos perceber a necessidade de nos editar, mudar o texto, apagar muito do que foi feito e até reescrever palavra por palavra.

Às vezes esse impulso surge ao reler algo recém escrito, noutras apenas depois de muitas revisões, mudanças na história, na voz de personagens, ou porque estamos com um outro estado de mente, onde o que está ali “não clica”. Entre tantos motivos, quanto mais eu praticava mais eu entendia: reescrever é necessidade.

Não precisamos escrever algo “perfeito” ou final de primeira, podemos experimentar, errar, acertar, tentar e mudar. E está tudo bem, não é perda de tempo, é parte do processo, é se reavaliar e melhorar.

O problema do apego

Um problema que já enfrentei foi o apego excessivo com o que já estava escrito. Eu li, considerei bom, soava certo, mas faltava algo. Uma cena, um diálogo, uma mudança estrutural… Sabia que faltava, mas não o quê. Há vários caminhos que possibilitam uma solução. Eu poderia encontrar as partes mais problemáticas, excluí-las, reescrevê-las, alterar a ordem em que aparecem… Mas para isso precisava desapegar do texto. Devia me permitir o alterar. Aceitar a necessidade de alterar.

Uma atitude simples que tomei para facilitar foi trabalhar com versões. Ao criar uma nova cópia de um texto sentia a anterior arquivada, salva, pronta para que eu a releia algum dia daqui três ou quatro anos (mesmo que eu não vá fazer isso). Eu precisava da sensação de que aquelas palavras estavam guardadas. Aí desapegava, o texto se tornava argila, suscetível às mudanças.

Sem apego, a massa pronta para ser moldada, encarava o texto com novos olhos e o modificava sem receios, trocava ordens de parágrafos, mudava diálogos, percebia histórias que ainda não estavam lá. Ou até algumas que precisava saber, mas o leitor não.

Reescrever – talvez doloroso, mas necessário

O processo de reescrita pode ser imenso, muitas vezes dar até mais trabalho que o ato inicial de escrever – seja aos poucos, com revisões constantes, ou as maiores, como segundos e terceiros rascunhos. É fácil achá-lo desnecessário de início, mas no geral é questão de prática. Uma vez ganho o hábito é notável o aumento de qualidade em nossos textos. Melhora-se a leitura, o ritmo, até mesmo o sentimento. Ganha-se um domínio e maior conhecimento sobre a obra.

Reescrever também é uma arte a ser construída e aprendida. E como todas as outras, exige esforço. E isso é o que nos tornará escritores (e reescritores) cada vez melhores.

“É perfeitamente normal escrever algo ruim – desde que você edite brilhantemente.*”
– C. J. Cherryh

E para você, como é o caminho para encontrar as palavras certas?

*tradução livre


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Fundador e editor do Boas Histórias, escritor e também o resultado dissociativo de si, pulando de telhado em telhado entre prosa, poesia, romances, tragédias, absurdos, realidade e fantasia. Persegue beleza e graça no uso das palavras, degustando ritmos urgentes e a leveza do ponderar. Resumo da obra: muito apaixonado por todo tipo de história.




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