“Requiem for the American Dream” e a natureza humana
Categoria: Audiovisual · Novidades · Observatório Reflexivo
Postado por Daniel Cousland em 03 de fevereiro de 2017 às 13:53 |


Como o retrato desanimador da sociedade mostrado no documentário “Requiem for the American Dream” reacendeu minhas esperanças pela mesma.

Imagem ilustrativa do texto "Requiem for the American Dream" e a natureza humana, com o rosto de Noam Chosmky em foco diante de um fundo escuro.

– documentário de Noam Chomsky (foto), professor de linguística do M.I.T, analista político, crítico, historiador, ativista político e escritor.

Muito se diz sobre a natureza humana. Muitas concepções negativas. E eu concordava com elas. Fui atraído a tal pensamento ao me ver desacreditado pelo mundo, pela capacidade humana de fazer o mal, pelo bombardeio de atrocidades que temos acesso em um mundo cada vez mais repleto de informação. Algo que parecia tão inerente ao cerne de quem somos. Algo inescapável. Uma luta eterna com nós mesmos para sermos bons.

“Nós precisamos entender melhor a natureza humana, pois o único perigo real que existe é o próprio homem… Não sabemos nada do homem, muito pouco. Sua psique deve ser estudada, pois somos a origem de todo o mal por vir.”
– Carl Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, fundou a psicologia analítica.

“O homem é mal, é uma besta selvagem por natureza. As pessoas têm de ser educadas desde a infância para que não haja mais ódio.”
– Marek Edelman, ativista político e social judeu-polonês, cardiologista, cofundador e posteriormente líder de uma organização judaica de combate ao nazismo na segunda guerra mundial.

“A natureza humana é má; sua bondade é o resultado de atividade consciente.”
– Hsün Tzu, um dos três grandes arquitetos do Confucionismo, sistema filosófico chinês.

Os personagens que criamos em nossas obras podem vivenciar jornadas que os levem a esses mesmos entendimentos. À medida que os desenvolvemos em uma história, diversos caminhos e opções se abrem: novas motivações, percepções e ideologias que mudem sua maneira de interagir com outros e o universo. A compreensão de alguém sobre a natureza humana pode ser um pilar fundamental sobre a maneira que ela enxerga o mundo.

E, para mim, ela era má. Por mais que eu quisesse acreditar no contrário, e às vezes tivesse esperanças, era má. Era a narrativa que eu contava para mim mesmo. Porém, ao assistir “Requiem for the American Dream”, de Noam Chomsky, cheguei a uma conclusão diferente:

 

A humanidade é boa.

 

O documentário “Requiem for the American Dream” é estruturado através de dez princípios de concentração de riqueza e poder, para contar a história da desigualdade financeira nos EUA, destacando o seu efeito corrosivo na democracia. Tal efeito instiga comportamentos como a competição entre indivíduos ao invés da colaboração, movidos pela filosofia da escassez (onde as oportunidades são limitadas e se meu vizinho conseguiu um emprego isso afeta diretamente as minhas chances de ser empregado) ao invés da filosofia da abundância (onde o sucesso alheio não é um obstáculo ao meu próprio, pois existem oportunidades para todos).

Outro comportamento apontado é o da fabricação de desejos de consumo como ferramenta de controle populacional, uma opressão vestida de liberdade falsa, capaz de direcionar o público para aspirações superficiais que o apaziguassem – gerando espectadores, não participantes que pudessem “interferir com a tomada de decisões do governo”. Ao longo da narrativa de “Requiem for the American Dream”, diversas outras ocorrências de teor similar são relatadas, citando intelectuais e políticos responsáveis por muitas delas que, gradualmente, criam “a máquina” que direciona o futuro para um triste fim, onde tudo colapsa, sentimento expressado por Chomsky:

“Se a sociedade se baseia em controle por riquezas privadas, ela irá refletir tais valores, e, de fato, os reflete. O valor da ganância e do desejo de maximizar ganho pessoal à custa de outros – qualquer sociedade, uma pequena sociedade baseada nesse princípio é feia, mas pode sobreviver. Uma sociedade global baseada nesse princípio está direcionada para destruição em massa.”
– Noam Chomsky

 

E como se vê algo de bom nisso?

 

Alguns podem estranhar minha compreensão positiva vinda de “Requiem for the American Dream”, repleto de  informações e análises que demonstram opressão e manipulação de proporções inacreditáveis à sociedade (tanto por impacto histórico quanto com quão atuais são) e, de certa forma, internalizados e impostos por essa mesma população (ou pelas as forças que a governam). Mas exatamente por entender mais das suas origens que cheguei a tal conclusão.

A narrativa que conto a mim mesmo começou a dizer: o ser humano é inerentemente bom. Ele se desenvolveu e viveu não só pela sobrevivência, pelo instinto selvagem, mas também pela empatia, pela comunidade, pelo ato de receber auxílio, mas também o oferecer. Ver a si mesmo no próximo, um semelhante com sentimentos, necessidades e a mesma capacidade de empatia. Que doa sangue, roupas, serviços, materiais, dinheiro, tempo e esforço.

Essa é a figura humana sobre a qual refleti enquanto assistia o documentário. Uma imagem de união de pessoas que clamaram por seus direitos e geraram mudanças sociais diante de políticos, instituições financeiras e corporações multinacionais que lutavam contra eles. Essa humanidade que protestou contra quem via suas liberdades e ativismos sociais da década de 60 como um “excesso de democracia”. Essa figura que se une em prol da igualdade, não quem ela se torna depois de doutrinada, quando se transforma na sociedade feia aludida por Chomsky.

 

A origem da democracia estadunidense

 

Um forte argumento apresentado em “Requiem for the American Dream” é de que a própria elaboração da constituição dos Estados Unidos foi feita com valores menos altruístas em mente. São citados trechos nos quais James Madison, teórico político e quarto presidente dos EUA, conhecido como “Pai da Constituição” por seu papel essencial na elaboração e promoção dessa, e também da declaração de direitos, demonstra essa intenção:

“A maior preocupação da sociedade deve ser a de proteger a minoria dos opulentos contra a maioria.”

Seu argumento era de que, em uma democracia que todos tivessem voto livre, a maioria entraria em acordo e se organizaria para tomar a propriedade dos ricos. Tal ato seria injusto e deveria ser evitado. Assim, o sistema constitucional foi ajustado para prevenir uma democracia completa que permitisse que a vontade de muitos sobrepujasse a de poucos.

Chomsky cita que Aristóteles, filósofo grego da antiguidade, via a democracia como um dos melhores sistemas políticos. Ainda assim, encontrou o mesmo dilema apontado por Madison. Mas ao invés de uma solução que previne uma verdadeira democracia, ele encontra outra resposta: “reduzir a desigualdade”.

Ao aumentar a igualdade, o dilema desaparece. Na solução empregada na sociedade estadunidense, o senado, que não era eleito, mas selecionado entre os donos de fortunas, efetivamente diminuiu a democracia, fundando a base para leis que favorecessem essa minoria. Esse egoísmo desencadeou inúmeros problemas sociais, econômicos e culturais, reverberando até hoje em níveis recordes de desigualdade.

Ainda assim, após assistir o documentário, mantenho: o ser humano é bom. Há mais de dois mil anos Aristóteles já via soluções colaborativas e igualitárias que nos auxiliariam. É possível melhorar.

 

Motivos para ter esperança ao assistir “Requiem for the American Dream”

 

Existe uma crença que carrego faz algum tempo, de que a vida é percepção. A maneira que olhamos para o mundo, como entendemos e reagimos ao que nos é apresentado, nossos padrões de pensamento e o que buscamos consumir e botar em nossa mente (livros, séries, filmes, artigos, esse texto) – tudo isso é muito importante para a maneira que vivemos a vida.

Nossa percepção, nossos gostos, nossa maneira de se comportar – todas, e muito mais, fazem parte de nossa visão do mundo. No início do texto eu falei sobre como eu percebia a humanidade como má em sua essência, que a bondade surgia como um esforço contrário a essa (e alguns pensadores concordavam comigo!). Esse olhar funcionava como um filtro que enxergava essa verdade, continuamente alimentado pelas atrocidades, corrupções e tragédias apresentadas nas mídias.

Eu já entendia que a mídia podia enganar, ser capaz de transformar e extrapolar qualquer acontecimento em algum evento midiático que tomasse a atenção da nação – e com isso também direcionar a maneira que a população pensasse, dia após dia, voltada ao que há de negativo. Ainda assim eu estava cego para o quão intrínseco e perturbador seu efeito poderia ser – sobrepondo até mesmo nossos melhores instintos de que somos compaixão e amor.

Ao assistir o documentário de Noam Chomsky consegui ver a construção desse processo na sociedade estadunidense, como eles foram doutrinados a desejarem consumir mais, a se entreterem mais, a buscarem seu hedonismo, em diminuir sua preocupação com o próximo, em pensar apenas na beleza de sua grama – a do vizinho é objeto de comparação, nos fazendo competir, pois a nossa deve ser melhor.

Esse é um tema muito amplo para se tratar em poucas linhas, e por sua natureza histórica e inter-relacionada se propaga nas mais diversas áreas de nossa existência. Porém faço o apelo: é importante pensar sobre o mesmo. É importante notar que nossa sociedade, e nossas personalidades, são extremamente influenciadas pelas culturas e políticas que nos cercam.

“Requiem for the American Dream” me proporcionou isso – um tempo para se pensar sobre uma figura maior, sua formação e impactos que ressoam no presente e o farão no futuro. É um documentário importante para acordar para a realidade, para entender seus problemas e compreender que, da mesma maneira que esses efeitos corrosivos assim o foram por design, efeitos positivos e uma vida melhor podem surgir da mesma maneira – planejando, unindo povos, compartilhando.

Chomsky conseguiu, retratando e explorando uma realidade tão aterradora, plantar sementes de esperança e de que podemos mudar. Então sim, depois de assistir essa obra eu acredito: é possível contar uma nova história.

 

No momento desta publicação, o documentário está disponível na Netflix brasileira.


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Fundador e editor do Boas Histórias, escritor e também o resultado dissociativo de si, pulando de telhado em telhado entre prosa, poesia, romances, tragédias, absurdos, realidade e fantasia. Persegue beleza e graça no uso das palavras, degustando ritmos urgentes e a leveza do ponderar. Resumo da obra: muito apaixonado por todo tipo de história.




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