Taika Waititi e a comédia da tristeza | Uma reflexão sobre encontrar o lado mais leve do trágico
Categoria: Audiovisual · Novidades · Observatório Reflexivo
Postado por Marcela Vitória em 24 de outubro de 2017 às 18:50 |


Diretor neozelandês Taika Waititi é mestre em retratar o humor na tragédia e encontrar motivos para sorrir quando tudo dá errado

Diretor Taika Waititi sentado no set de filmagens do filme A Incrível Aventura de Rick Baker (2016).

Diretor Taika Waititi sentado no set de filmagens do filme A Incrível Aventura de Rick Baker (2016).

Confesso que antes de morar na Nova Zelândia não conhecia o trabalho do diretor e comediante Taika Waititi, mas estar aqui e não reconhecer o rosto dele é quase um sacrilégio! Taika foi considerado o Neozelandês do Ano em 2017 e estreia nos cinemas mundiais no fim de outubro como diretor de Thor: Ragnarok. Apesar do filme ser um blockbuster, Waititi é reconhecido por seus trabalhos independentes e sua grande influência na cena cômica neozelandesa.

Quem é Taika Waititi?

 

Kiwi, diretor, escritor, ator, pintor e comediante. Waititi é irônico, seu humor permeia a mundanidade das relações, faz graça com a falta de desenvoltura e introversão das personagens, porém não deixa de exaltar as virtudes do que nos faz genuinamente humanos. Tem um olhar menos glamouroso sobre as disfunções dos laços familiares e explora a arte de contar histórias dramáticas com humor, pois acredita que é o melhor jeito de mostrar o espírito humano, em que é nos momentos difíceis que encontramos luz para vencê-los.

Como diretor, Taika lançou quatro – mundialmente famosos na Nova Zelândia – longa-metragens: Loucos por Nada (2007), Boy (2010), O que Fazemos nas Sombras (2014) e A Incrível Aventura de Rick Baker (2016).

Nos seus filmes é possível reconhecer muitas inspirações no trabalho de outros cineastas, como Wes Anderson e Quentin Tarantino, mas é no diálogo carregado de referências da cultura pop e nas respostas e expressões das personagens que Taika Waititi se destaca como criador de obras primas audiovisuais.

Por sua grande influência no país de origem, ele é a cara de muitas campanhas publicitárias, e assim como Taika, o povo kiwi tem um humor não tão óbvio para os desavisados, mas genial, como essa campanha anti-racismo:

A comédia da tristeza

Em sua obra, personagens marginalizados e que não se encaixam, retratados de forma extrema e direta são o ingrediente principal para o tipo de humor que o diretor traz para a tela.

Boy e Ricky Baker são as personagens que mais sumarizam a ideia de comédia da tristeza, com histórias de meninos sendo pressionados pela vida para serem mestres do próprio destino. Quando não podem mais esperar pelos adultos, em situações difíceis (e reais para muitas crianças pelo mundo todos os dias) eles encaram as adversidades confiantes em si mesmos.

Cena do filme Boy (2010) em que Boy se apresenta para a classe.

Cena do filme Boy (2010) em que Boy se apresenta para a classe.

Boy é um menino de 11 anos, que vive numa fazenda com sua avó e primos, uma cabra e seu irmão mais novo, Rocky, que acha que tem poderes mágicos. O ano é 1984 e Michael Jackson é rei até em Waihau Bay, Nova Zelândia. Pouco depois de sua vó sair por uma semana, o pai de Boy, Alamein, aparece do nada. Tendo imaginado uma versão heróica de seu pai durante sua ausência, Boy fica cara a cara com a versão real de um bandido incompetente que voltou para encontrar um pacote de dinheiro que havia enterrado anos atrás.

Já Rick Baker é um órfão criado na cidade que os agentes da assistência social consideram “um ovo podre”. Apesar de ser despejado no interior remoto da Nova Zelândia, Ricky finalmente encontra uma família amável e amorosa (bem, uma mãe adotiva amável e amorosa e um rabugento pai adotivo em Hec, interpretado por Sam Neill). Mas quando a tragédia ataca e Ricky é forçado a retornar para o sistema, ele faz o que qualquer menino delinquente faria: finge sua própria morte e foge. Ele logo é acompanhado por um Hec relutante, e os dois embarcam em uma viagem hilariante e comovente nas florestas remotas e deslumbrantes da Nova Zelândia, fugindo do governo e aprendendo a sobreviver e crescer um com o outro.

 

Encontrar o lado mais leve do trágico

 

Ambas as histórias têm tudo para serem dramas hollywoodianos. Inclusive, o filme As Aventuras de Rick Baker é baseado no livro Wild Pork and Watercress, do autor neozelandês Barry Crump, que passa longe da leveza e senso de humor colocado no roteiro de Taika Waititi. Sobre isso, o diretor comenta que “quando a atmosfera é tensa e desconfortável, é quando sentimos a maior necessidade de rir. O tipo de humor que eu prefiro e escrevo vem de encontrar o lado mais leve do trágico”.

Seu estilo de humor pode se enquadrar como ‘Deadpan serious’, que não encontrei tradução para o português, mas, no caso de Taika, apresenta a ingenuidade e estranheza de uma forma tão absurda que parece sarcástica, mas não é e essa é a graça. Os filmes não podem ser classificados como drama ou como comédia, pois sem um o outro estaria incompleto. É um estilo honesto de humor, que apresenta as falhas e virtudes da natureza humana sem grandes ambições.

Meus filmes são situações tristes com piadas. Meu segundo filme Boy é sobre negligência infantil, mas tentei torná-lo divertido. Meu primeiro filme, Loucos por Nada, é sobre pessoas que estão tão desconectadas entre elas e de emoção que estão desesperadas para encontrar amor. Se você olha para o filme, há coisas muito pesadas sobre isso, mas também é muito engraçado. Não tem problema misturar as coisas estranhas.

Taika em entrevista para Isha Aran. Splinter News. 15/06/2016.

Cena do filme Loucos por Nada (2007)

Cena do filme Loucos por Nada (2007)

Humanos são perdedores e descoordenados, e tá tudo bem

As histórias contadas por Taika Waititi são profundas, mas nunca pretensiosas, são estranhas e cativantes, elas aquecem e partem o coração da audiência, e refletem fielmente a alegria e a tristeza da vida reforçando que esses são dois sentimentos fundamentais do que é ser humano. Waititi é um observador do comportamento e das relações que temos com o mundo, e representa a nossa ambiguidade em personagens mundanas e cheias de falhas e virtudes. Para mim, o que faz a criação do diretor tão cativante é a capacidade de fazer a audiência rir enquanto chora com a brutalidade dos sentimentos expostos e a tristeza da cena ficar apenas agridoce.

A realidade é que todos somos perdedores e não coordenados. Nós somos o pior de todos os animais na Terra e há algo bastante cativante sobre isso.

Taika Waititi

Se esqueci de citar alguma coisa, ou você também é fã da obra de Taika, conta nos comentários! E se você quiser saber mais sobre a produção de Waititi, a página da Wikipédia dele é bem completa, e do IMDb também.


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é juntadora de palavras, designer e especialista em comunicação, sócia do estúdio criativo FLAMINGOwtf e agora colunista do Boas Histórias. Acredita que viver amassa a roupa e que palavras podem mudar o mundo. Escreve sobre tudo que faz o coração acelerar. Ama ouvir causos de pessoas mais velhas, sente que a experiência dá sentido e esperança para o que é contado. Lançou com a ilustradora Élin Godois o Guia de nós dois, um livro ilustrado para registrar histórias de amor.




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