Conto | Viajante sem rumo
Categoria: Criações do Boas Histórias · Novidades
Postado por Marcela Vitória em 23 de novembro de 2017 às 20:30 |


Conferiu o celular mais uma vez, nenhuma notificação. Aumentou e diminuiu o volume na indecisão de se isolar do mundo ou prestar atenção na conversa que rolava no banco da frente. “E se existisse um universo paralelo em que Nickelback é melhor que Pearl Jam?” “Impossível! Nem o mais idiota dos humanos em um universo paralelo escutaria Nickelback por escolha”. Melhor aumentar o volume da música.

Menina de costas parada em uma estação observando o vulto da velocidade do trem

 

Seguia em direção ao norte, sem um destino certo, só a falsa certeza de que se encontrar é se perder, como dizia aquele pôster motivacional de um cachorro correndo atrás do próprio rabo. Na estação de trem bucólica e meio abandonada, a espera é acompanhada por olhares distantes que nunca chegam a se cruzar, numa dança entre falta de interesse e medo de qualquer contato interpessoal desnecessário.

Em sua última viagem, conheceu lugares tão ordinários que deixaram aquela sensação de que já tivesse passado por lá. Encontrou mais perguntas do que respostas sobre os motivos da vida ser como é, mas perceber que as pessoas flutuam pela vida sem muita noção do que realmente estão fazendo era o que mais acalentava o seu coração.

O conforto do trem é um convite para se entregar aos olhos cansados. Caindo no sono, lembrou de quando tinha 12 anos e tentava fugir do mundo mergulhando nas melodias tristes de músicas antigas, escondida no banco de trás do Opala 76 na garagem de casa, sonhando com uma realidade menos solitária.

Sentia-se como uma estranha em sua própria vida, espectadora de um filme de baixo orçamento. Nesse filme da vida real, a pessoa que mais amava era a sua irmã. Melissa era a pessoa mais incrível que ela conhecia, tinha um estilo único, escutava músicas que ninguém escutava e tinha sempre as melhores histórias confusas de noites fora que não lembrava muito bem. Ela conhecia todas as bandas antigas e tinha um ouvido afiado para reconhecer os sons das bandas que estavam surgindo, poderia falar por horas do impacto do Led Zeppelin no jeito que escutamos música, teorizava sobre a obsessão com o Kurt Cobain, que para ela nem era tudo isso e defendia com todas as forças que Sex Pistols foi a boyband mais fake que o punk rock já viu. Apesar de ser a sua gêmea, Melissa era o completo oposto dela; a segurança de ser tudo aquilo que quisesse a deixava mais bonita, como se a confiança fosse o makeover dos filmes – não era uma maquiagem ou um cabelo bem escovado, era a confiança de ser. Melissa era Tyler Durden do seu filme de baixo orçamento e ela era totalmente consciente do fato.

O súbito apito do trem embaralhou devaneio e realidade, seria de fato real? Tocou a própria pele ressecada para ter certeza de que não era produto da imaginação, presa num delírio insensato. Alguém caminhava nos trilhos, escapando de ser atingida pela locomotiva. Olhou pela janela para procurar os olhos da andarilha caída nas folhas outonais do barranco. Naquele encontro de faces confusas, tentou imaginar o destino daquela moça, quais as suas aspirações? Estaria ela apenas vagando? Quais leituras teria feito? Seria uma mocinha de romance? Talvez uma vilã amargurada com uma infância difícil que serviria de justificativa para seus atos levianos?

Tem o hábito de pensar demais sobre muita coisa, procurar significados ocultos e chegar a conclusões banais sobre protagonistas de manchetes nos noticiários. Sempre se pergunta sobre o desfecho dos coadjuvantes das histórias, numa busca inconsciente de se encontrar nas respostas.

Voltou a se perder em pensamentos e deu-se conta de que vivia mais neles do que fora. Pela janela, a paisagem se misturava como se uma espátula tivesse arrastado as cores em dois blocos fundidos pela velocidade e o embaçado do vidro. O tempo passa diferente numa jornada longa como essa, aquele amontoado de metal em trilhos transportando corpos de carne e sonhos se move rápido demais para uns e lento demais para outros. Tudo depende do destino final.

O aleatório do aplicativo de músicas toca Locomotive Breath do Jethro Tull e ela sorri com o cabelo amassado contra o vidro. 


Criações do Boas Histórias · Novidades
 
é juntadora de palavras, designer e especialista em comunicação, sócia do estúdio criativo FLAMINGOwtf e agora colunista do Boas Histórias. Acredita que viver amassa a roupa e que palavras podem mudar o mundo. Escreve sobre tudo que faz o coração acelerar. Ama ouvir causos de pessoas mais velhas, sente que a experiência dá sentido e esperança para o que é contado. Lançou com a ilustradora Élin Godois o Guia de nós dois, um livro ilustrado para registrar histórias de amor.




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